Chamados a sofrer e regozijar pela santidade e esperança

Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a essa graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus. E não somente isso, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado. Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu, a seu tempo, pelos ímpios. Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.

Espero que nas próximas quatro semanas eu possa ajudá-los a se preparar para sofrer por Cristo. Uma das razões pela qual, creio, que deveríamos nos preparar para sofrer por Cristo é porque a Bíblia afirma que devemos e a outra é porque a situação moderna diz que devemos.

A preparação para sofrer

David Barrett, o missionário erudito que editou a Oxford World Christian Encyclopedia (Enciclopédia Cristã Mundial de Oxford) publica a cada ano uma atualização sobre o estado do movimento cristão no mundo com projeções sobre como os eventos ocorrerão no ano de 2000. Os dados atuais deste ano ele informou que, em 1980, havia aproximadamente 270 mil mártires cristãos. Este ano haverá provavelmente 308 mil e, no ano 2000, ele estima que haverá 500 mil deles. 1 São pessoas que morrem cuja causa está de modo direto ou indireto ligado ao fato de serem cristãos. 2

Na Somália, hoje, dezenas de milhares de cristãos são, de propósito, isolados e condenados a morrer de fome por facções rivais. A hostilidade entre populações cristãs e muçulmanas na Nigéria é perigosa e explosiva. Os milhões de cristãos na China e muitos outros países vivem em constante perigo de assédio e prisão.

Em nossa própria sociedade secular, de modo geral, especialmente as elites intelectuais e os líderes da mídia são cada vez mais hostis à igreja evangélica e à visão bíblica de justiça e bondade, a qual defendemos. A primeira emenda é distorcida a serviço dos antagonistas seculares que ainda não seria inconcebível para algum juiz defender que o serviço público de água, eletricidade e rede de esgoto para os edifícios cristãos estabelece uma ordem inconstitucional da religião pelos recursos e regulamentos governamentais.

Protestadores pacíficos que defendem a vida quando oram em locais públicos podem ser violentamente atacados por defensores do aborto, como em Buffalo, Nova Iorque, e não recebem proteção da polícia, mas, em vez disso, são acusados de crime.

O nome de Jesus é livremente desprezado e blasfemado por famosos apresentadores de entretenimento de uma forma que, em décadas anteriores, os tornariam passíveis de repreensão na visão do público, mas, hoje, isso é aprovado ou ignorado.

O custo da grande comissão

Tudo isso significa que ser cristão terá um custo maior nos anos vindouros. E concluir a Grande Comissão custará a alguns de nós a vida — como já acontece e sempre tem ocorrido. Há 18 séculos, Tertuliano disse: “Nós [cristãos] nos multiplicamos sempre que somos exterminados por vocês; o sangue dos cristãos é semente” (Apologeticus, 50). E, 200 anos atrás, São Jerônimo afirmou: “A igreja de Cristo tem sido fundada pelo derramamento de seu próprio sangue, não de outros; por suportar a atrocidade, não por infligi-la. Perseguições têm feito a igreja crescer; martírios a têm coroado” (Carta 82).

Hoje, falamos tanto de países fechados que quase perdemos totalmente a perspectiva de Deus sobre missões, como se isso fosse fácil e seguro. Não há países fechados para aqueles que admitem que perseguição, prisão e morte são os resultados prováveis da propagação do evangelho. E Jesus disse claramente que eles são os resultados prováveis. “Então, sereis atribulados, e vos matarão. Sereis odiados de todas as nações, por causa do meu nome” (Mateus 24,9). “Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros”.

Até que recuperemos a perspectiva de Deus a respeito do sofrimento e a difusão do Evangelho, não nos regozijaremos nos triunfos da graça que ele planeja.

Obediência em missões e justiça social sempre têm sido custosas e sempre há de ser assim. Na vila de Miango, na Nigéria, há um albergue SIM (Missão Sudanesa do Interior) e uma pequena igreja chamada Kirk Chapel. Atrás da capela, há um pequeno cemitério com 56 túmulos. Em 33 deles há corpos de crianças missionárias. Lê-se na lápide dos túmulos: “Ethyl Arnold: 1 de setembro de 1928 a 2 de setembro de 1928”. “Barbara J. Swanson: 1946-1952”. “Eileen Louise Whitmoyer: 6 de maio de 1952 a 3 de julho de 1955”. Esse foi o custo de levar o evangelho à Nigéria para muitas famílias em anos recentes. Charles White narrou essa história quando visitou o pequeno cemitério e finalizou com uma sentença tremendamente notável. Ele disse: “A única forma pela qual podemos entender o cemitério de Miango é nos lembrar de que Deus também sepultou seu Filho no campo missionário”. 3

E quando Deus ressuscitou seu Filho dentre os mortos, ele chamou a igreja para segui-lo no mesmo campo perigoso chamado “o mundo inteiro”. Mas estamos dispostos a segui-lo?

Que você faz com 2 Timóteo 3,12?

Dois anos atrás, em Ermelo, na Holanda, irmão Andrew contou a história em que se reuniu em Budapeste, na Hungria, com 12 pastores daquela cidade e ensinou-os a Bíblia. Entrou um velho amigo, um pastor da Romênia que havia sido recentemente libertado da prisão. Irmão Andrew disse que ele parou de ensinar e sabia que era momento para ouvir. Após uma longa pausa, o pastor romeno perguntou: “Andrew, há pastores na prisão na Holanda?” “Não”, ele respondeu. “Por que não?”, o pastor perguntou. O irmão Andrew pensou por um momento e disse: “Penso que seja porque não aproveitamos todas as oportunidades que Deus nos concede”.

“Então, veio a questão mais difícil. “Que você faz com 2 Timóteo 3,12? O irmão Andrew abriu sua Bíblia, encontrou o texto e o leu em voz alta: “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos”. Ele fechou a Bíblia lentamente e disse: “Irmão, por favor, perdoe-me. Não fazemos nada com esse versículo”. 4

Receio que domesticamos o conceito de piedade em uma inofensiva moralidade e cumprimento da lei em nível médio que 2 Timóteo 3,12 se tornou incompreensível para nós. Penso que muitos de nós não estamos preparados para sofrer pelo Evangelho. E é por essa razão que me sinto obrigado a me valer dessas quatro semanas tratando do que a Bíblia fala a esse respeito e o que Deus está nos pedindo hoje.

Quatro propósitos bíblicos do sofrimento

Cada mensagem corresponde a um dos quatro propósitos no sofrimento. E podemos falar de propósitos do sofrimento porque é evidentemente o propósito de Deus que nós, às vezes, soframos pela justiça e devido ao evangelho. Por exemplo, “Por isso, também os que sofrem segundo a vontade de Deus encomendem a sua alma ao fiel Criador, na prática do bem” (1 Pedro 4,19; cf. 1Pe 3,17; Hebreus 12,4-11).

Os quatro propósitos do sofrimento que tenho em mente são:

  1. O propósito moral, porque o sofrimento refina nossa santidade e esperança (Romanos 5,1–8);
  2. O propósito da intimidade, porque, no sofrimento, nosso relacionamento com Cristo se torna mais profundo e mais terno (Filipenses 3,7–14);
  3. O propósito das missões, porque Deus nos chama para preencher as aflições de Cristo quando estendemos a dignidade delas à nossa própria realidade (Colossenses 1,24);
  4. E o propósito da glória, porque essa leve e momentânea tribulação produz para nós um eterno peso de glória (2 Coríntios 4,16–18).

O propósito moral (espiritual) do sofrimento

Hoje, focaremos no propósito moral (espiritual) do sofrimento. Deus ordena que soframos pelo Evangelho e pela causa da justiça devido aos efeitos morais e espirituais que o sofrimento produz em nós.

A glória na esperança da glória de Deus

Vamos ler um dos grandes textos sobre este assunto: Romanos 5,1-2. Depois de mostrar que somos justificados pela fé e que, por Jesus Cristo, temos acesso a essa graça e estamos firmes, Paulo declara no versículo 2 que nós cristãos “gloriamo-nos na esperança da glória de Deus”. A principal causa da felicidade na vida cristã é a ansiosa expectativa que veremos e compartilharemos da glória de Deus. A esperança da glória de Deus é a essência do regozijo.

Agora, se isso é verdadeiro, então Paulo é perfeitamente coerente para prosseguir e dizer nos versículos 3 e 4 que também nos gloriaremos nas coisas que fazem nossa esperança se ampliar. Essa é a linha de raciocínio aqui: começamos com a esperança da glória de Deus e, no fim do versículo 2, então, concluímos com a esperança no fim do versículo 4. O ponto é: se nos gloriamos na esperança, haveremos de nos gloriar no que produz esperança.

O que produz esperança

Desse modo, os versículos 3 e 4 descrevem o que produz esperança. “E não somente isso [não somente gloriamo-nos na esperança da glória de Deus]. Mas também nos gloriamos em nossas tribulações, sabendo que as tribulações produzem perseverança; e a perseverança, [produz] experiência [um senso de ser aprovado]; e a experiência [produz], esperança”.

Portanto, a razão de nos gloriarmos nas tribulações não é porque gostamos de sofrimento, miséria, desconforto ou problema (não somos masoquistas), mas porque tribulações produzem o que gostamos: um forte senso de esperança que procede pela experiência da paciência e um senso de ser aprovado.

Deus tem um propósito no sofrimento de seu povo

Assim sendo, a principal lição aqui é que Deus tem um propósito nos sofrimentos de seu povo. E esse propósito é sempre diferente do objetivo do ministério que o povo de Deus exerce. O objetivo do Ministério pode ser evangelizar pessoas solteiras que não frequentam igrejas nas Cidades Gêmeas 5, ou profissionais de área suburbanas, ou muçulmanos turcos. Mas o propósito de Deus pode ser produzir mais esperança nos ministérios e missionários por colocá-los na prisão. Deus sempre faz mais que isso (como veremos nas próximas semanas), mas já seria o bastante.

Em outras palavras, Deus não avalia a produtividade e a eficiência do ministério da forma como o faríamos. Frequentemente, Paulo teve que considerar a estranha obra de Deus em suas prisões, seus açoites, naufrágios e planos arruinados. Como Deus poderia ser tão ineficiente para permitir que sua missão fosse bloqueada muitas vezes? A resposta desse texto (não a única) seria: Deus está comprometido a aumentar a esperança e a santidade de seu povo no processo de alcançar o perdido. E apenas Deus sabe como criar o equilíbrio nessas duas realidades e fazê-las acontecer da melhor forma.

Três efeitos das aflições

Agora, vamos examinar os efeitos das aflições mais especificamente. Há três efeitos mencionados nos versículos 3 e 4.

1. Perseverança

Primeiro, tribulações produzem perseverança, ou paciência. Paulo não quer dizer que isso é universalmente verdadeiro. Para muitos, tribulações desencadeiam ódio, amargura, ira, ressentimento e murmuração. Mas não é o efeito contínuo naqueles que têm o Espírito de Cristo. Para eles, o efeito é a paciência, porque o fruto do Espírito é paciência.

O fato aqui é até que o sofrimento aconteça em nossas vidas, especialmente o sofrimento por Cristo e sua justiça, não vivenciaremos a extensão e a profundidade de nossa devoção a Cristo. Até que os tempos fiquem difíceis, não experimentaremos e não saberemos realmente se somos cristãos quando o tempo está bom, como os tipos que Jesus descreveu na parábola do semeador e os solos em Marcos 4,16-17:

“São estes os semeados em solo rochoso, os quais, ouvindo a palavra, logo a recebem com alegria. Mas eles não têm raiz em si mesmos, sendo, antes, de pouca duração; em lhes chegando a angústia ou a perseguição pela palavra, logo se escandalizam”.

Assim, Paulo diz que um grande efeito da tribulação é que ela produz paciência e perseverança no povo de Deus de modo que esse povo possa ver a fidelidade de Deus nas vidas das pessoas que fazem parte dele e pertencem a Deus verdadeiramente.

2. Experiência

Este é o ponto do segundo efeito já mencionado (v. 4): “E a perseverança [produz] experiência”. Literalmente, a palavra dokimen significa “a experiência de ser testado e aprovado”. Poderíamos dizer “aprovação” e “provado”.

Não é difícil de compreender. Quando as tribulações ocorrerem, você persevera em devoção a Cristo e não se volta contra ele. Quando sair dessa experiência com um forte senso de que é genuíno, provado, que não é um hipócrita, a árvore de confiança foi dobrada e não quebrou. Sua fidelidade e lealdade foram testadas e passaram no teste. Agora, elas têm experiência. O ouro de sua fé foi posto no fogo e saiu refinado, não foi consumido.

Quando tiveres que passar pelos sofrimentos ardentes,
Minha graça suficiente será tua provisão
A chama não te queimará, eu apenas desejo
Tua impureza consumir e teu ouro refinar.

Esse é o segundo efeito da aflição: a provação é o refinamento do ouro de nossa fidelidade a Jesus. Perseverança produz a garantia da aprovação.

3. Esperança

O terceiro efeito procede desse senso de ser testado, aprovado e refinado. O versículo 4b: “E a experiência [produz] esperança”. Isso nos faz retornar ao versículo 2: “Gloriamo-nos na esperança da glória de Deus”. A vida cristã começa com esperança nas promessas de Deus no Evangelho e se move pela aflição para mais e mais esperança.

A aprovação produz mais esperança porque nossa esperança aumenta quando experimentamos a realidade de nossa própria autenticidade através do teste. As pessoas que conhecem Deus melhor são as que sofrem com Cristo. As pessoas que são mais firmes na esperança são as testadas mais profundamente. As pessoas que consideram com mais sinceridade, firmeza e anelo a esperança da glória são as que têm os confortos dessa vida removidos por meio das tribulações.

Gloriar-se na esperança da glória e na tribulação

Portanto, o primeiro fato que afirmamos sobre o sofrimento e aflição nessas séries é que Deus tem um propósito neles. E esse propósito é produzir paciência em seu povo pelo seu nome; e, mediante o sofrimento e a aflição, testar, provar e refinar a realidade da fé e fidelidade a Cristo; e por esse senso de aprovação fortalecer, aprofundar e intensificar nossa esperança.

Temos metas de Ministério como igreja (discipulado urbano, pastoreio de grupos familiares, redes de evangelização, defesa dos nascituros; mobilização da juventude e crianças). Temos uma grande visão missionária de enviar 2000 missionários para o ano 2000; temos um edifício para pagar e um orçamento para cobrir totalmente por Cristo e seu reino. Quanto esse Deus em sua soberania irá realizar, não sei. Mas eu sei, em nossa busca obediente dessas metas, que Deus tem um propósito para cada obstáculo, frustração, dor e aflição e esse propósito é tão importante quanto as metas mesmas — sua perseverança, sua experiência e sua esperança na glória de Deus.

Seja mais o que Deus possa estar planejando para nossa vida, ele sempre o faz no âmago de sua vida. E, portanto, vamos com Paulo nos gloriar na esperança da glória e também nas tribulações que estão se aproximando.


1 International Bulletin of Missionary Research*, v. 16, n. 1, p. 27, January, 1992.

2 Obviamente, esses dados estão defasados, pois se passaram 12 anos desde então. NT.

3 WHITE, Charles. Small Sacrifices. Christianity Today, v. 36, n. 7, p. 33, June 22, 1992.

4 Retirado do prefácio de Herbert Schlossberg, em Chamados a sofrer, chamados ao triunfo. Portland: Multnomah Press, 1990. p. 9-10.

5 Esse título se refere às maiores cidades, Minneápolis e Saint Paul, no Estado de Minnesota.

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