O propósito de Cristo na evangelização

Com estes intuitos, parti para Damasco, levando autorização dos principais sacerdotes e por eles comissionado. Ao meio-dia, ó rei, indo eu caminho fora, vi uma luz no céu, mais resplandecente que o sol, que brilhou ao redor de mim e dos que iam comigo. E, caindo todos nós por terra, ouvi uma voz que me falava em língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões. Então, eu perguntei: Quem és tu, Senhor? Ao que o Senhor respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Mas levanta-te e firma-te sobre teus pés, porque por isto te apareci, para te constituir ministro e testemunha, tanto das coisas em que me viste como daquelas pelas quais te aparecerei ainda, livrando-te do povo e dos gentios, para os quais eu te envio, para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim. Pelo que, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial, mas anunciei primeiramente aos de Damasco e em Jerusalém, por toda a região da Judéia, e aos gentios, que se arrependessem e se convertessem a Deus, praticando obras dignas de arrependimento. (Atos 26.12-20)

O Senhor Jesus Cristo tem seus propósitos na evangelização. Como discípulos de Cristo, engajados na difícil tarefa de pregar o evangelho a todos os povos, temos de nos atentar à agenda, por assim dizer, de Jesus Cristo, para a evangelização. Não será surpreendente quando constatarmos que os meios e propósitos de Cristo são muito diferentes dos que a igreja tem – na melhor das intenções – praticado ao longo da história e, especialmente, em nossos dias. A passagem acima, ajuda-nos a entendermos um pouco melhor como o Senhor Jesus Cristo age e como ele estabelece seus propósitos e estratégias de evangelização, inclusive em meio a situações que normalmente são consideradas como obstáculos à pregação do evangelho. Percebemos como a providência de Deus é fundamental no trabalho de evangelização. Desejo considerar alguns fatores importantes do propósito evangelístico de Cristo através desse episódio da vida de um dos maiores missionários da história, o apóstolo Paulo.

A Estratégia Evangelística de Deus

Uma questão da mais elevada importância é nos atentarmos à estratégia de Deus quanto à evangelização. Quando Jesus olhou para o futuro e predisse o que aconteceria aos seus discípulos, ele falou algo muito sério, mas também encorajador. Em Lucas 21.12–13, disse “lançarão mão de vós e vos perseguirão, entregando-vos às sinagogas e aos cárceres, levando-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome; e isto vos acontecerá para que deis testemunho.” O fato de que ainda que a causa de Cristo acabe triunfando em todo o universo, por ser ele vivo e soberano, em curto prazo, seguir a Jesus definitivamente significará prisão e perseguição para alguns de seus discípulos.

O que nos encoraja nessas palavras é que Deus intenta que a perseguição e as prisões sejam oportunidade para testemunharmos sobre a verdade do evangelho. Em Lucas 21:13, lemos o seguinte: “Isso será tempo para vocês testemunharem.” A prisão interromperá a sua estratégia evangelística, mas jamais interrompe a estratégia evangelística de Deus.

Os Planos de Paulo e os Planos de Deus

Você Já parou para pensar quanto do testemunho de Paulo quanto a Cristo foi dado em circunstâncias que ele não planejara? Não sou contra planejamento. É essencial. Paulo tinha planos evangelísticos muito claros. Isso fica óbvio em Romanos 15 e em todo o livro de Atos. O que quero ressaltar é que Deus é o planejadormor do evangelismo. O que ele quer são pessoas que calçam os sapatos da prontidão de mover-se com o evangelho (Efésios 6.15). Já que estamos indo com coração cheio de amor pelos povos perdidos, pode haver muitas interrupções surpresas – mas nenhuma sem propósitos evangelísticos.

Noutras palavras, sempre e em todas as circunstâncias – especialmente nas que são inesperadas, e as frustrantes – esteja pronto para dar testemunho de Cristo.

Como Paulo acabou perante o Rei Agripa

O texto que abre esse capítulo fala sobre o testemunho de Paulo ao rei Agripa em Atos 26. Como foi que Paulo chegou até lá? Como foi que um missionário judeu-cristão conseguiu uma audiência com o rei de toda a Palestina? Esse não era o plano do apóstolo Paulo! Dois anos antes ele tinha sido preso em Jerusalém sob falsas acusações. Naquela época, ele pôde dar seu testemunho perante todo o Sinédrio judaico, como Jesus havia predito – “prenderão vocês e isso será hora de testemunhar”. Depois, houve uma trama para matá-lo e ele foi removido à região costeira, na Cesaréia. Naquela ocasião, Paulo dera um poderoso testemunho diante do governador romano, Felix. Depois de dois anos preso em Cesaréia, o novo governador, Festo, coloca Paulo diante do rei Agripa para que ouçam o que ele tem a dizer. Todo o conselho jurídico judaico e mais três dos mais altos oficiais políticos da Palestina (Felix, Festo e Agripa) ouvem o evangelho porque Paulo foi preso e encarcerado sob falsas acusações. Com certeza a lição que devemos aprender das palavras de Jesus em Lucas 21.13 e do modo como foram cumpridas na vida de Paulo é que Deus tem propósitos evangelísticos em todos os reveses de nossa vida.

A Lição que devemos Aprender

Quantos de nós temos vivido um revés de dois anos semelhante ao do apóstolo Paulo? Não se aflija como se Deus não tivesse um propósito evangelístico nisso. Confie em sua sabedoria de permitir o que aconteceu. Calce os sapatos da prontidão, da preparação de ir em frente com o evangelho mesmo durante os tempos de maiores provas em sua vida. Não tire seus sapatos de preparação achando que os reveses não têm nenhum propósito evangelístico. Jesus disse que essas coisas acontecem como oportunidades para que o testemunho cristão seja dado.

Vejo tanto encorajamento aqui – podemos viver uma vida empolgada, na expectativa da providência de um Deus soberano. Levantamos de manhã, oramos e fazemos nossos planos para aquele dia. Mas então oramos novamente, dizendo: “Senhor, sei que eu não controlo este dia – o que vai acontecer com meu carro, quem telefonará para mim no trabalho, quem encontrarei na hora do almoço, uma centena de mais detalhes inesperados. Governe meu dia para que todos os desvios de rota não-planejados tenham valor espiritual! Ajude-me a perceber a providência de Deus naquilo que Satanás quer que eu enxergue apenas como interrupções e irritações”.

A vida então será como fazer exercícios de corrida nas ruas de um grande centro urbano. Tempos atrás, resolvi correr no centro da cidade onde moro. Tinha uma idéia geral de onde queria ir – era o meu plano. Porém, o que fiz – e acho que isso é parecido com muito na vida – foi permitir que os semáforos determinassem onde eu deveria virar. Se o sinal estivesse fechado a oeste, eu atravessava a rua no verde e correria mais para o norte. Quando surgia um sinal fechado rumo ao norte, eu atravessava a rua e correria para o oeste. Fui assim por diante

Ao chegar a uma esquina perto do prédio da Irmandade Luterana, quase me esbarrei com três amigos, membros de minha igreja, voltando para casa depois de uma reunião de café da manhã. Mais tarde, pensei: De todas as centenas de caminhos pelos quais eu poderia ter vindo hoje cedo, as paradas nos semáforos – símbolos da providência de Deus – me guiaram diretamente a esse grupo de homens.

Espero, portanto, que você viva os seus dias com um senso de expectativa e prontidão, movido pelo evangelho da paz. Paulo está diante de Agripa por apontamento divino do Senhor após um desvio de rota dois anos em um cárcere da Cesaréia. A caminho de Roma, após alguns semáforos providenciais, ele se encontra diante do rei da Palestina. Jesus diz que a razão dessas coisas todas acontecerem é pelo testemunho.

O texto que abriu este capítulo ressalta esse ponto de duas maneiras: sua existência é testemunho da empolgante providência de Deus, bem como a disposição de Paulo pelo evangelho. Seu conteúdo é testemunho do que Cristo vai realizar nesse processo de evangelismo.

Cinco coisas que Deus faz por meio de Paulo

Observemos o que aconteceu com Paulo. Veremos, com alguma clareza, ao menos cinco coisas que Cristo disse a Paulo que ele deveria almejar com sua vida como testemunha de Cristo. Nem toda pessoa foi chamada individualmente para fazer exatamente o que Paulo fez – atravessando culturas e plantando igrejas e dedicando-se de tempo integral ao ministério do evangelho. Todavia, todos devemos calçar os pés com a preparação e estarmos prontos a nos mover, com o evangelho da paz (Efésios 6.15).

Note que Paulo começa a contar sua história a Agripa no capítulo 26 de Atos. Chegando à parte do encontro com Jesus na Estrada para Damasco, ele diz a Agripa – e a nós – o que Jesus lhe disse:

Levanta-te e firma-te sobre teus pés, porque por isto te apareci, para te constituir ministro e testemunha, tanto das coisas em que me viste como daquelas pelas quais te aparecerei ainda, livrando-te do povo e dos gentios, para os quais eu te envio, para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim.(Atos 26.16-18).

É isso que Cristo tenciona alcançar pelo testemunho de seu povo. É por isto que devemos orar, tendo grande confiança de estar pedindo conforme a vontade revelada de Deus na Escritura.

1. Ir e falar

A primeira coisa que precisamos perceber é que Cristo não quer apenas que esperemos que os outros venham e vejam – ele diz que devemos ir e falar. Isso concluímos pelo verso 17b: “para os quais eu te envio”.

Desde a primeira vinda de Cristo até sua segunda vinda, a estratégia de missões é a encarnação. Jesus Cristo veio ao mundo salvar os pecadores. Saiu de um lugar e foi para outro. Abriu mão das glórias e do conforto de seu lar celeste para ir onde estavam as pessoas, a fim de lhes falar sobre o Pai. E ele disse: “Como o Pai me enviou, assim eu vos envio”.

Nossa missão jamais deve ser apenas uma missão de “venha e veja”. Ela tem de ser missão de “Vá e fale”. Suponhamos que você tivesse acabado de chegar em cena em sua cidade, como um missionário que tem sua formação profissional em alguma área – como o apóstolo Paulo, que era um fazedor de tendas. O que você é? – alguém que trabalha em seus emprego secular a fim de sustentar a si e sua família e que pode penetrar uma determinada população com o evangelho. Permita-me desenvolver um pouco mais esse cenário que propus. Você acaba de chegar em sua cidade pela primeira vez e diz: “Bem estou aqui, sem emprego ou moradia. O que farei para alcançar essa área metropolitana para Cristo?” Acho que a resposta seria, “Vou buscar um emprego”. “Vou orar, deixando que o Espírito me dirija até as pessoas, na medida em que for me relacionando com a sociedade em meu redor. Vou viver entre o povo e me empregar aonde as pessoas trabalham e se encontram. Noutras palavras, vou buscar e adotar um modelo de penetração de “Vá e Fale” em vez de “Venha e veja”. Grande idéia! Tremenda estratégia!

O fato de que é exatamente isso que Deus já fez deve nos encorajar. Nem todos vivem nem trabalham na igreja. A maioria dos membros de igreja vive e trabalha entre as pessoas – os da terra. É exatamente aqui que Deus os quer. É a primeira coisa que Cristo tenciona fazer com suas testemunhas – fazer com que vão e falem e não apenas esperem que os outros venham e vejam.

2. Abrir os Olhos dos Descrentes

A segunda coisa que Cristo deseja realizar em nosso testemunho é abrir os olhos dos descrentes. Verso 18: “para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz.”.

Paulo diz em 2 Coríntios 4.4, “o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus”. Mas, neste texto, Cristo nos diz que deseja que essa cegueira seja curada. Ele quer dar a visão. Esse é o alvo evangelização.

Como podemos fazer isso? Como abrir os olhos do cego? A resposta, claro, é que não podemos em nós mesmos. 2 Coríntios 4.6 diz: “Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo”. O Deus que no princípio criou a luz com um “Haja luz” onipotente – esse Deus que agora pode abrir os olhos dos cegos espirituais.

Mas Atos 26.18 indica que Cristo enviou Paulo para isso: “Eu te envio, para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus”. Entendo que isso significa que nós, os cristãos, somos parceiros com o Espírito Santo em abrir os olhos dos cegos. Fazemos duas coisas: Oramos para que Deus abra os olhos dos cegos. E falamos palavras de verdade a respeito de Cristo, para que, quando os olhos das pessoas se abrirem, haja algo para crer. O Espírito Santo nunca abre os olhos do coração até que haja na mente o evangelho da verdade para crer. É nossa tarefa. Colocamos a verdade de Cristo na mente da pessoa com um testemunho; oramos pelo milagre de visão espiritual para o cego. E Deus, a seu tempo e de seu modo, diz: “Haja luz!”

Não assuma mais do que é a sua responsabilidade humana no processo. Ainda mais urgente para nós: Não assuma menos!

3. Que os Descrentes deixem as trevas para a luz

O terceiro propósito de Cristo para nosso testemunho é que os descrentes deixem as trevas para a luz, e do poder de Satanás para Deus. Versículo 18:

(...) para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim.

Permita que eu comente duas coisas sobre essa conversão em relação a abrir os olhos.

  • A Luz não é estranha até que os olhos sejam abertos*

Noël e eu tivemos uma hospede em nosso pequeno apartamento na Alemanha, algum tempo atrás. Ela era totalmente cega e viveu conosco por alguns dias. Certa noite, fui ao corredor, que estava totalmente escuro, e percebi que nossa hóspede estava no banheiro no final do corredor mas não havia nenhuma luz acesa. Abri a boca para dizer onde estava o interruptor, e me impedi de cometer esse ato falho a tempo. Ela é cega. Nunca acende a luz. Foi uma sensação muito estranha.

O fato é que nossa amiga nunca tratará a falta de luz como algo estranho até que seus olhos sejam abertos. A ausência de luz é sua terra nativa. Se seus olhos estivessem abertos para conhecer a luz, ela passaria das trevas para a luz. Assim também são as coisas no âmbito espiritual. Onde há cegueira espiritual, as pessoas estão à vontade nas trevas do pecado. Se você disser: “Ei! Acenda a luz. Você vai esbarrar em alguma coisa” – não saberão do que se trata. Primeiro, os olhos têm de ser abertos. Depois eles passarão a andar na luz .

  • O único poder de Satanás sobre nós é mediante o engano*

O outro comentário tem a ver com deixar o poder de Satanás e o voltar para Deus. Você vê no que implica, quanto ao poder de Satanás, que o deixaremos quando os nossos olhos se abrirem? Paulo diz, quero que abram seus olhos para que deixem o poder de Satanás. O único poder que Satanás tem sobre homens e mulheres é o poder do engano – fazendo com que as coisas pareçam aquilo que não são.

Assim, quando os olhos se abrem para ver Cristo como ele é realmente, ver Deus e o mundo e o pecado, a justiça e o céu e o inferno como realmente são, o poder de Satanás é desfeito. É quebrado o poder de Satanás pelo Espírito da verdade. Quais são a primeira e a última peça da armadura de Deus de que fala Paulo em Efésios 6 para proteger-nos dos principados e potestades e nos tornar efetivos na luta contra eles? O cinto da verdade e a espada do Espírito que é a Palavra de Deus.

Em seu testemunho quanto à verdade de Cristo, Deus tem de abrir os olhos dos cegos e livrá-los de Satanás, porque o único modo como Satanás pode nos prender é enganando-nos quanto ao que realmente é desejável.

4–5. Conceder perdão e um Lugar

Em quarto e quinto lugar, vemos que o que Cristo tenciona fazer por meio de nosso testemunho são mencionados no final do versículo: para que o povo deixe as trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus, que “recebam perdão dos pecados e um lugar entre aqueles que são santificados pela fé em mim”. Esse, afinal, é o propósito da evangelização: a reconciliação com Deus, mediante o perdão conquistado por Cristo e a santificação que segue. A evangelização existe para que santos existam, como Cristo é santo.

Resumindo

Eis aí um resumo do que Cristo tenciona fazer através de mim e de você quando testemunhamos a verdade do evangelho. Ele quer abrir os olhos dos que estão espiritualmente cegos; quer que eles deixem as trevas do pecado para a luz da justiça; quer que eles deixem o poder de Satanás que só nos prende por mentiras, e venham a Deus. Quer que seus pecados sejam perdoados. E quer que, pela fé – não por fardos legalistas – se unam aos santos na busca da santidade.

Ah! que grandes, coisas eternais Deus tenciona fazer através de nós enquanto vamos proclamar a verdade de Jesus.


Em parceria com Editora Fiel.

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