Deus não poupou o próprio Filho

28 Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo seu propósito. 29 Porquanto, aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. 30 E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e, aos que justificou, a esses também glorificou. 31 O que diremos, pois, à vista dessas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? 32 Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?

Algumas verdades quase nos deixam sem fala. Romanos 8,28-32 quase deixou Paulo assim, sem fala. Todas as coisas cooperam para o seu bem. Deus contempla isso, porque ele o conheceu de antemão, predestinou-o para a glória com Cristo, chamou-o quando estava morto em delitos e pecados, justificou-o livremente em sua graça por meio da fé somente e agora o glorifica pouco a pouco até o dia de sua vinda, quando essa glorificação será consumada com um corpo semelhante ao corpo de Cristo glorioso e ressurreto.

Isso deixa Paulo quase emudecido. Quase. Ele declara: “O que diremos, pois, à vista dessas coisas?” Ouço dois fatos nessas palavras para Paulo e para nós. Ouço: “é difícil encontrar palavras para exprimir esses grandes fatos”. E: “Precisamos encontrar palavras para esses grandes fatos”. Penso que Paulo afirma: “O que então diremos sobre essas coisas?” A resposta é: “Precisamos dizer isso novamente de outro modo”. Precisamos encontrar palavras diferentes e dizer isso uma vez mais. É isso o que ele faz com as palavras: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” É exatamente o que ele está dizendo em todo o texto. Mas ele precisa afirmar de outra maneira.

E precisamos também. Se você compartilhou o Evangelho muitas vezes com uma criança ou um pai, ou amigo, precisa falar novamente, falar de outra maneira. Precisamos escrever outro e-mail, outra carta, ensinar outra lição, erguer outra placa, escrever outro poema, cantar outro hino, exclamar outra sentença à beira da cama sobre a glória de Cristo para um pai prestes a morrer. “O que então diremos sobre essas coisas?” Diremos de outra forma, reiteradamente, até morrermos e, em seguida, por toda a eternidade. Esses fatos sobre a glória de Cristo jamais deixarão de ser dignos de serem expressos de outra maneira.

Deus é por nós

Como Paulo expressa isso dessa vez no versículo 31? Ele expressa: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” E tal fato é resumido na sentença anterior: Deus é por nós e, portanto, ninguém pode ser contra nós. Deus nos conheceu de antemão em amor e nos predestinou para adoção de filhos, chamou-nos da morte, declarou-nos justos e opera em nós de glória em glória até o grande e feliz dia de Cristo. Como diremos isso de novo? Diremos: “Deus é por nós”.

Ó, como é preciosa para nós estas duas palavras: “por nós”. Não há palavras mais temíveis no universo que estas: “Deus é contra nós”. Se a ira poderosa e infinita é contra nós, a aniquilação seria um amável presente de graça. É por essa razão que aqueles que tentam nos persuadir de que a aniquilação representa o julgamento, não o inferno, estão muito distantes de seu verdadeiro conceito. Aniquilação sob a ira de Deus não é julgamento é libertação e alívio (veja Apocalipse 6,16). Não. Não há aniquilação de qualquer ser humano. Vivemos para sempre com Deus contra nós ou com Deus por nós. E todos os que estão em Cristo podem dizer com alegria quase inexprimível: “Deus é por nós”. Ele está do nosso lado.

Agora, não há qualquer condenação para os que estão em Cristo Jesus (Romanos 8,1). Deus está inteiramente a nosso favor e jamais contra nós. Nenhuma de nossas enfermidades é o julgamento de um juiz condenatório. Nenhum de nossos carros estragados ou instrumentos com defeitos são punições de Deus. Nenhum de nossos conflitos conjugais é um sinal de sua ira. Nenhum de nossos empregos perdidos é uma penalidade devido ao pecado. Nenhuma de nossas crianças rebeldes é um estalo do chicote da retribuição divina. Se estivermos em Cristo. Não. Deus é por nós, não contra nós em e através de todas as coisas. Em todo conforto e em todo sofrimento.

Quem é contra nós?

O que significa dizer de outra maneira: “Quem é contra nós?” Estamos ainda no versículo 31: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” A resposta que Paulo espera quando formula essa questão é: “Ninguém pode ser contra nós”. Resposta que nos faz questionar: “Realmente?” “O que isso significa? No versículo 35, haverá tribulação, angústia, perseguição, e espada. O versículo 36 afirma que os cristãos são mortos o dia todo; são considerados ovelhas para o matadouro. Paulo afirmou isso. Assim, o que deseja dizer: “Quem será contra nós?” Penso que ele quer informar que ninguém pode ser bem-sucedido contra nós.

O diabo e os homens corruptos podem torná-lo doente, roubar seu carro, semear as sementes da discórdia em seu casamento, tomar seu emprego, roubar-lhe seu filho. Mas o versículo 28 declara que Deus faz com que todas as coisas cooperem para o seu bem se você o ama. E se essas coisas cooperam finalmente para o seu bem, os desígnios do adversário são frustrados em seus propósitos de serem contra você e são transformados na exaltação de Cristo, santificação da alma, aprofundamento da fé, e bênçãos pelo sofrimento. Se Deus é por você, não lhe poupa dessas coisas. Mas ele planeja o bem onde o adversário planeja o mal (Gênesis 50,20; 45,7). As coisas que são contra você, ele planeja para que sejam a seu favor. Ninguém pode ser vitorioso contra você.

Que impacto isso deveria ter em nossas vidas! Não deveríamos ser semelhantes ao mundo se esses fatos são exatamente assim. A maior parte das pessoas no mundo escolhe esse estilo de vida porque teme a enfermidade, o roubo, o terror, a perda do emprego e muitas outras coisas. Mas para o seguidor de Jesus, o Senhor declara: “Porque os gentios procuram todas essas coisas...; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino” (veja Mateus 6,32-33). Deus lhe dará o que necessita. E o que perder ou tiver falta no ministério do reino de amor, sacrifício e sofrimento, há de cooperar para o seu bem e lhe retornará de modo designado por Deus cem vezes mais.

Portanto, poste-se diante de seu adversário e pregue o Evangelho, seja em Kankan, em Guiné Bissau; Istambul, na Turquia; ou Tenggara, na Indonésia; ou Minneapolis, em Minnesota. E diga àqueles que até planejam tirar sua vida: “Faça o que deva, mas, no fim, suas palavras e injúrias somente podem aperfeiçoar minha fé e aumentar meu galardão e me enviar ao paraíso com o Jesus Cristo ressurreto”. Ó quão diferente seria se crêssemos que Deus é por nós e ninguém pode ser contra nós!

A lógica consistente do céu

E, agora, o que diremos a respeito disso? O que o apóstolo Paulo acrescentará a esse fato? Ele dirá de outra forma; de uma maneira no versículo 32 que não apenas promete o insucesso de adversários, mas também promete generosidade da parte de Deus que jamais termina, é transbordante e total. E tudo isso Deus promete com base na sólida rocha da morte de seu Filho pelos pecadores. “Aquele que não poupou o seu próprio Filho antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?”

Certa vez chamei isso de: “A lógica consistente do céu”. É um argumento que procede do superior para o inferior; do difícil para o fácil; do obstáculo quase intransponível para o que pode ser facilmente superado. Uma vez que Deus não poupou o próprio Filho — esse é o grande fato, o mais difícil, o obstáculo intransponível para nossa salvação —, entregando-o à tortura, ao escárnio e à morte que carrega o pecado. Se pode ser realizado, então o que é inferior e fácil seguramente serão feitos: ele nos dá graciosamente tudo o que Cristo comprou para nós — todas as coisas! A lógica consistente do céu.

Seu próprio Filho

Considere as partes dessa lógica. Primeiro, a frase “seu próprio Filho”. Jesus Cristo não foi um homem a quem Deus encontrou e adotou para ser seu Filho na terra. Jesus Cristo é a imagem do Pai pré-existente, de fato sempre existiu, coeterna, não criada e divina em quem habita toda a plenitude da divindade (Colossenses 2,9). Lembre-se de Romanos 8,3, em que Deus “enviou seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa”. Em outras palavras, o Filho existiu antes de assumir a forma humana. Ele não é um mero profeta. Este é Deus o Filho.

E quando o versículo 32 refere-se a ele como “seu próprio” Filho, o fato é que não há outros e ele é infinitamente precioso para o Pai. Pelo menos duas vezes enquanto Jesus estava na terra, Deus disse: “Este é o meu Filho amado” (Mateus 3,7; 17,5). Em Colossenses 1,13, Paulo o chama de “o Filho do [de Deus] seu amor”. O próprio Jesus narrou a parábola dos lavradores maus na qual os servos do dono da vinha foram espancados e mortos quando vieram colher os frutos. Então, Jesus disse: “Restava-lhe ainda um, seu filho amado” (Marcos 12,6). O único filho é tudo que o Pai tinha. E ele era profundamente amado. E ele o enviou.

Tenho quatro filhos. Não há amor semelhante ao amor de um pai pelo filho. Não compreenda erradamente. Amo minha esposa e amo minha filha. E amo meu pai e meus companheiros da equipe desta igreja e vocês. E não quero dar a entender que o amor de um pai pelos seus filhos é melhor que esses amores mencionados. Quero dizer que é diferente. E esses outros amores que mencionei são também. Mas agora me refiro somente a esse amor: não há amor semelhante ao amor de um pai por um filho.

O fato do Versículo 32 é que esse amor de Deus por seu único Filho foi igual a um obstáculo enorme do tamanho do Monte Everest se interpondo entre ele e nossa redenção. Havia um obstáculo quase intransponível. Deus poderia (deveria) transpor esse elo carinhoso, admirável, precioso, caloroso, afetuoso com seu Filho e entregá-lo para ser enganado, traído, abandonado, ridicularizado, chicoteado, espancado, cuspido e pregado na cruz; perfurado com uma espada como um animal é abatido. Ele realmente faria isso? Ele entregaria o Filho de seu amor? Se ele faria, então qualquer propósito que ele esteja buscando jamais poderia ser impedido. Se esse obstáculo da entrega do Filho de Deus foi transposto em busca do seu bem, então qualquer obstáculo seria.

Deus fez isso? A resposta de Paulo é: sim, e ele formula sua resposta de modo negativo e positivo: “Deus não poupou o Filho, mas o entregou”. Nas palavras “Ele não o poupou”, podemos captar a imensidade da dificuldade e do obstáculo. Deus não teve prazer no sofrimento ou desonra de seu Filho. Esse acontecimento foi algo infinitamente horrível para o Filho de Deus ser tratado dessa forma. O pecado atingiu sua pior fase naquelas horas. O pecado foi exposto em toda sua realidade: um ataque contra Deus. Todo pecado — nosso pecado — é um ataque contra Deus. Uma rejeição de Deus. Um assalto às suas leis, sua verdade, sua perfeição. Mas Deus não poupou seu Filho desse tratamento.

Ele o entregou

Em vez disso, “ele o entregou”. Não perca de vista. Quase tudo que é importante e precioso no universo se concentra aqui nesse momento incomparável no tempo. O amor divino pelo homem e o ódio divino pelo pecado se aglomeram aqui. A soberania absoluta de Deus e o eterno peso da responsabilidade humana e comportamento moral se aglutinam. A sabedoria divina infinita e poder se reúnem aqui — quando Deus entregou seu próprio Filho à morte.

A Bíblia afirma que Judas o traiu (Marcos 3,19) e Pilatos o entregou (Marcos 15,15); Herodes, os judeus e os gentios se ajuntaram contra Jesus (Atos 4,27-28); ele morreu pelos nossos pecados (1 Coríntios 15,3); entregou-se a si mesmo pelos nossos pecados (Gálatas 1,4); carregou em seu corpo nossos pecados (1 Pedro 2,24). E ela até mesmo afirma como já foi mencionado em um dos textos anteriores que o próprio Jesus se entregou, fato citado também em (João 10,17; 19,30). Mas Paulo afirma o fato definitivo no versículo 32. Em e por trás, sob e através de todas essas entregas humanas de Jesus, Deus estava entregando seu Filho à morte. “Sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos” (Atos 2,23). Em Judas, Pilatos, Herodes, as multidões de judeus, os soldados gentios e nosso pecado e a submissão de Jesus como a de um cordeiro, Deus entregou seu Filho. Nada mais supremo aconteceu.

Se isso é verdadeiro, então que acontecerá?

O que diremos à vista dessas coisas? Diremos: “A lógica do céu tem a resposta!” Se Deus entregou seu próprio Filho, então… o quê? Resposta: Ele nos dará com ele certamente e graciosamente todas as coisas. Se Deus não sonegou seu Filho, ele não sonegará nada de nós. Essa é a aquisição e o cumprimento definitivos do Salmo 84,11: “Nenhum bem sonega aos que andam retamente”. Essa é a promessa e o fundamento de 1 Coríntios 2,21-23: “Tudo é vosso: seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é vosso, e vós de Cristo, e Cristo, de Deus”. Esse é o selo da promessa de Efésios 1,3: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênçãos nas regiões celestiais em Cristo”. Essa é a segurança da promessa de Jesus nas palavras: “Não vos inquieteis, dizendo: ‘Que comeremos? Que beberemos? Ou: com que nos vestiremos?... vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus 6,31-33).

Visto que ele não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, dar-nos-á com certeza moral todas as coisas com ele. Realmente? Todas as coisas? Que dizer da “tribulação, angústia, perseguição, forme, nudez, perigo, ou espada” (Romanos 8,35)? A resposta está nesta magnífica citação de João Flavel, há 350 anos:

“Ele não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós; como ele não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (Romanos 8,32). Como seria imaginável que Deus deveria sonegar, depois disso, as bênçãos espirituais e temporais de seu povo? Como ele não os chamaria eficazmente, justificaria-os graciosamente, santificaria-os completamente, e os glorificaria eternamente? Ele não os vestiria, não os alimentaria, não os protegeria, não os livraria? Seguramente, se ele não poupou seu próprio Filho de um golpe, uma lágrima, um gemido, um suspiro, uma circunstância de miséria, jamais se poderia imaginar que ele deveria, depois disso tudo, negar ou sonegar de seu povo, por cuja causa todo esse sofrimento aconteceu, quaisquer misericórdias, confortos, privilégios, espiritual ou temporal, que são para o bem deles.

Deus sempre faz o bem por nós. Se crê que ele entregou seu próprio Filho por você e é exatamente nisso o que crê. E que toda a vida cristã é simplesmente o fruto dessa fé. Olhe para Cristo. Olhe para o amor de Deus. Viva em amor. E não tenha mais medo.

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