Casamento: manifestação de Deus do cumprimento do pacto da graça

2,13 E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, deu-vos vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; 14 tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz; 15 e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo triunfando deles na cruz. [...] 3,12 Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, bondade, humildade, mansidão, longanimidade. 13 Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós; 14 acima de tudo isso, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição. 15 Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração, à qual, também, fostes chamados em um só corpo; e sede agradecidos. 16 Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração. 17 E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai. 18 Esposas, sede submissas ao próprio marido, como convém no Senhor. 19 Maridos, amai vossas esposas e não as trateis com aspereza.

Vimos nas últimas duas semanas o fato mais fundamental que se pode afirmar com respeito ao casamento: ele é obra de Deus e o fato mais categórico que se pode dizer sobre o casamento é que ele existe para a manifestação de Deus. Esses dois conceitos são formulados por Moisés, em Gênesis 2. Entretanto, eles são mais explicitados por Jesus e Paulo no Novo Testamento.

Jesus: o casamento é obra de Deus

Jesus torna o conceito mais explícito de que o casamento é obra de Deus. Marcos 10,6-9: “Porém, desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher [Gênesis 1,27]. Por isso, deixará o homem a seu pai e mãe [e unir-se-á à sua mulher], e, com sua mulher, serão os dois uma só carne [Gênesis 2,24]. De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem”. Essa é a declaração mais explícita na Bíblia de que o casamento não é meramente uma obra humana. As palavras: “Deus ajuntou” significa que o casamento é obra de Deus.

Paulo: o casamento é a manifestação do pacto entre Cristo e sua igreja

Paulo define o conceito mais explicitamente de que o casamento foi planejado para ser a manifestação de Deus. Em Efésios 5,31-32, ele cita Gênesis 2,24 e, em seguida, diz-nos o mistério que sempre esteve contido no matrimônio: “Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá a sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne. Grande é esde mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja”. Em outras palavras, o pacto envolvido em deixar mãe e pai e se unir à esposa e tornar-se uma carne é a descrição do pacto entre Cristo e sua igreja. O casamento existe definitivamente para manifestar o cumprimento do amor pactual entre Cristo e sua igreja.

Um modelo de Cristo e da igreja

Perguntei a Noel se havia alguma coisa que ela queria hoje. Ela disse: “Você não pode dizer com muita frequência que o casamento é um modelo de Cristo e a igreja”. Penso que ela está certa e há pelos menos três razões: 1) esse conceito eleva o casamento das sórdidas imagens de comédia e confere a ele o sentido magnificente que Deus designou que ele tivesse; 2) esse conceito fornece uma base sólida na graça, uma vez que Cristo obteve e sustenta sua noiva pela graça somente; e 3) esse conceito demonstra que a liderança do marido e a submissão da esposa são cruciais e crucificadas. Ou seja, elas são tecidas no significado essencial do casamento como manifestação de Cristo e da igreja, mas elas são definidas pela obra de renúncia de Cristo na cruz para que o orgulho e a tirania deles sejam eliminados.

Dedicamos as primeiras duas mensagens na primeira destas razões: definir o fundamento do matrimônio como manifestação do pacto de amor de Deus. O matrimônio é um pacto entre um homem e uma mulher no qual eles prometem ser fiéis como marido e esposa em uma união de nova carne, enquanto ambos viverem. Esse pacto, selado com votos solenes e união sexual é designado uma demonstração do cumprimento do pacto da graça de Deus.

Uma base sólida na graça

Este é o título de hoje: “O casamento: a manifestação de Deus do cumprimento do pacto da graça”. Agora, voltamo-nos para a segunda razão na qual mencionei que Noel está certa ao afirmar que você não pode dizer com muita frequência que o casamento é um modelo de Cristo e a igreja: a saber, esse modelo confere ao casamento uma base sólida na graça, visto que Cristo obteve e sustenta sua noiva pela graça somente.

Em outras palavras, o principal conceito hoje é que, uma vez que o novo pacto de Cristo com esta igreja é criado e sustentado pela graça comprada com sangue, e, portanto, os casamentos humanos são designados a ser uma manifestação da graça do novo pacto. E a forma que eles manifestam esse novo pacto é por confiarem na obra da graça de Deus e transformar uma experiência vertical com Ele em uma experiência horizontal com seus cônjuges. Expressando de outra forma, no casamento, você vive cada hora na alegre dependência do perdão de Deus e justificação e da prometida graça futura e você aplica essas coisas à sua esposa a cada momento — como uma extensão do perdão de Deus, justificação e ajuda prometida. Esse é o conceito de hoje.

A centralidade da graça justificadora e perdoadora

Estou ciente de que todos os cristãos supõem que fazem isso em todos os seus relacionamentos (não somente cristãos casados): viva a cada momento pelo perdão, justificação, e a graça de Deus, que supre tudo, e então aplique-os aos outros em sua vida. E Jesus diz que tudo em nossas vidas é uma manifestação da glória de Deus (Mateus 5,16) Mas o casamento é planejado para ser uma manifestação especial do pacto da graça de Deus. Diferente de todos os outros relacionamentos humanos, o marido e a esposa estão unidos por um pacto em um relacionamento o mais íntimo possível por toda a vida. Há funções únicas de liderança e submissão, mas isso não é a minha tese hoje. Será tratado mais tarde. Hoje, considero marido e esposa cristãos de per se, não na analogia da cabeça e corpo. Antes que um homem e mulher possam aplicar de forma bíblica e bondosa as funções únicas de liderança e submissão, precisam descobrir o que significa edificar suas vidas na experiência vertical de perdão e justificação e auxílio prometido e, então, aplicar horizontalmente aos seus cônjuges. Assim, esse é o foco hoje.

Ou para expressar isso com termos da mensagem da última semana: o segredo para estar nu e não ficar envergonhado (Gênesis 2,25), quando, de fato, um homem e uma esposa fazem muitas coisas de que deveriam ficar envergonhados, é a experiência do perdão vertical de Deus, a graça justificadora aplicados horizontalmente uns aos outros e manifestada ao mundo.

A ira de Deus vem

Brevemente, vamos examinar o fundamento dessa verdade em Colossenses. Vamos começar com Colossenses 3,6: “Por estas coisas vêm a ira de Deus”. Se você afirma: “A última coisa que queria ouvir sobre meu tumultuado casamento é a ira de Deus”, você é como o pescador frustrado na costa ocidental da Indonésia no dia 26 de dezembro de 2004, que disse: “A última coisa que queria ouvir sobre meu tumultuado comércio de pesca é um tsunami”. Uma profunda compreensão e temor da ira de Deus são exatamente o que muitos casamentos precisam, porque sem isso, o Evangelho é diluído às meras relações e perde sua glória bíblica. E, sem ela, você será tentado a pensar que sua ira — sua ira — contra sua esposa é simplesmente enorme para ser vencida, porque você jamais provou como é ver uma ira infinitamente maior vencer pela graça, a saber, a ira de Deus contra você.

A remoção da ira de Deus

Assim, começamos com a ira de Deus e sua remoção. Agora, retorne comigo para Colossenses 2,13-14: “E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, deu-vos vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz”.

Essas últimas palavras são as mais cruciais. Esse escrito de dívida, que era contra nós, Deus o removeu, encravando-o na cruz. Quando aconteceu? Há dois mil anos. Isso não aconteceu em seu interior e não ocorreu com qualquer ajuda sua. Deus fez isso por você e fora de você antes que tivesse nascido. Essa é a grande objetividade de nossa salvação.

O cancelamento do escrito de dívida na cruz

Tenha certeza de que você compreende a mais maravilhosa e surpreendente de todas as verdades: Deus registrou todos os seus pecados que o tornaram um devedor à ira (pecados são ofensas contra Deus que atraem a ira dele), e, em vez de exibi-los na sua face e usá-los como garantia para enviá-lo ao inferno, ele os coloca na palma da mão de seu Filho e os encrava na cruz.

De quem foram os pecados cravados na cruz? De quem foram os pecados punidos na cruz? Resposta: meus pecados. E os pecados de Noel — os pecados de minha esposa e meus pecados —, os pecados de todos que se desesperam para salvarem a eles mesmos e confiam apenas em Cristo. De quem foram as mãos cravadas na cruz? Quem foi punido na cruz? Jesus foi. Há um nome bonito para isso. Esse nome é substituição. Deus condenou meu pecado na carne de Cristo (Romanos 8,3). Maridos, vocês não podem crer nisso com muita intensidade. Esposas, vocês não podem crer nisto com muita intensidade.

A justificação vai além do perdão

E se retrocedermos e extrairmos toda nossa compreensão da justificação de Romanos, podemos dizer mais. Justificação vai além do perdão. Não somente somos perdoados em virtude de Cristo, mas Deus também nos declara justos por isso. Deus requer duas coisas de nós: punição por nossos pecados e perfeição em nossas vidas. Nossos pecados precisam ser punidos e nossas vidas precisam ser justas. Entretanto, não podemos suportar nossa própria punição (Salmo 49,7-8) e não podemos prover nossa própria justiça. Ninguém é justo; não, ninguém (Romanos 3,10).

Portanto, Deus, devido ao seu imensurável amor por nós, proveio seu próprio Filho para fazer ambos. Cristo suporta nossa punição e cumpre nossa justiça. E quando recebemos a Cristo (João 1,12), toda nossa punição e toda nossa justiça é considerada nossa (Romanos 4,4-6; 5,1; 8,1; 10,4; Filipenses 3,8-9; 2 Coríntios 5,21).

Justificação aplicada externamente

Esta é a realidade vertical que precisa ser aplicada externamente de uma perspectiva horizontal aos nossos cônjuges: se o casamento deve ser uma manifestação do pacto e do cumprimento do pacto da graça de Deus. Vemos isso em Colossenses 3,12-13: “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, bondade, humildade, mansidão, longanimidade. Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós”.

“Como o Senhor perdoa você, assim você também precisa perdoar” — sua esposa. Como o Senhor o “suporta”, desse modo você precisa suportar sua esposa. O Senhor “o suporta” todo dia, porquanto você está aquém de cumprir sua vontade. Realmente, a distância entre o que Cristo espera de você e o que você realiza é infinitamente maior que a distância entre o que você espera de seu cônjuge e o que ele realiza. Cristo sempre perdoa mais e suporta mais do que nós. Perdoe, assim como você foi perdoado. Suporte, como ele suporta você. Isso se mantém se você é casado com um cristão ou um incrédulo. Permita que a medida da graça de Deus para você na cruz de Cristo seja a medida de sua graça para sua esposa.

E, se você é casado com um cristão, pode acrescentar isso: como o Senhor o considera justo em Cristo, embora você não seja de fato em comportamento ou atitude, assim considere seu cônjuge justo em Cristo, embora ele não seja — embora ela não seja. Em outras palavras, Colossenses 3 diz que você deve tomar a graça vertical e aplicá-la horizontalmente à sua esposa. É para isso que o casamento é útil, mais definitivamente: a manifestação do cumprimento do pacto da graça de Cristo.

A necessidade da sabedoria arraigada no Evangelho

Agora, neste momento, centenas de situações complexas emergem que clamam por uma profunda sabedoria espiritual arraigada nas verdades do evangelho e em longos anos de experiência dolorosa e fiel. Expressando de outro modo, não há forma em que eu poderia aplicar essa mensagem para as necessidades particulares de todos. Além da pregação, precisamos do Espírito Santo, necessitamos de oração, precisamos meditar na Palavra, necessitamos ler os discernimentos dos outros, precisamos do conselho de amigos sábios que são calejados com o sofrimento, necessitamos de a igreja nos suportar quando tudo desmorona. Portanto, não tenho ilusões de que eu poderia dizer tudo o que é preciso ser dito para ajudá-lo.

Viver em sentido vertical e então aplicar ao meu exterior

Pode ser útil encerrar transmitindo diversas razões por que enfatizo o pacto de amor como perdão e o ato de considerar os outros justos. Não acredito em deleitar-se com a outra pessoa? Sim, acredito. Os dois: a experiência e a Bíblia me atraem para isso. Sem dúvida, Jesus é casado com sua noiva e, é claro, que isso é ambos: possível e bom agradar ao Senhor (Colossenses 1,10). E ele certamente é infinitamente digno de nosso agrado nele. É o ideal no casamento: duas pessoas se humilhando e buscando mudar em comportamentos piedosos que agradem nossos cônjuges e satisfaçam suas necessidades físicas e emocionais ou os agrade em toda boa maneira. Sim. O relacionamento de Cristo e a igreja inclui tudo isso.

Mas as razões que enfatizo para viver verticalmente da graça de Deus e então aplicar o perdão e justificação ao seu cônjuge é 1) porque haverá um conflito baseado no pecado e estranheza (e vocês não serão capazes de concordarem um com o outro sobre o que é simplesmente estranho a respeito de um e do outro e que é pecado); e 2) porque o trabalho difícil e severo de suportar e perdoar torna possível as afeições florescerem quando parece que elas desapareceram; e 3) porque Deus recebe a glória quando duas pessoas muito diferentes e imperfeitas forjam uma vida de fidelidade na fornalha da aflição por confiar em Cristo.

Em Cristo, Deus o perdoou e a seu cônjuge

Agora, vou aprender aqui e da próxima vez vou lhe contar sobre a descoberta que eu e Noel fizemos. Prevejo que o sermão será chamado “o sermão do monte adubado”.

Até então, maridos e esposas, induzam em suas próprias consciências essas verdades fundamentais — maior que qualquer problema em seu casamento — que Deus perdoa todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz. Creia nisso de todo o seu coração e aplique isso à sua esposa.

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