O Espírito Santo, as Línguas de Fogo e a plenitude de Deus

E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos concordemente no mesmo lugar; E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. E em Jerusalém estavam habitando judeus, homens religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu. E, quando aquele som ocorreu, ajuntou-se uma multidão, e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! não são galileus todos esses homens que estão falando? Como, pois, os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos? Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, E Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, Cretenses e árabes, todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus. E todos se maravilhavam e estavam suspensos, dizendo uns para os outros: Que quer isto dizer? E outros, zombando, diziam: Estão cheios de vinho. (Atos 2:1-13)

Antes de começarmos quero apontar que tenho desenvolvido algumas premissas para esse sermão, são elas:

  • Premissa 1: O poder prometido por Jesus em Atos 1:8 e Lucas 24:49 é um poder extraordinário. A experiência prometida está além do poder que o Espírito Santo derrama para o novo nascimento e do poder que possibilita a santificação gradual do cristão. Isso é fácil de entender a partir dos termos "sereis revestidos de poder" ou "recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós", e pelos efeitos desse poder, que podem ser visto no livro de Atos, além do fato de que os discípulos já haviam nascido de novo antes de Pentecostes (Lucas 10:20, João 15:3).

  • Premissa 2: Esta promessa de que os discípulos receberiam poder quando o Espírito Santo viesse sobre eles (Atos 1:8) e que eles seriam revestidos de poder do alto (Lucas 24:49) foi uma promessa feita para sustentar o processo de evangelização do mundo, e todo os ministériso que apoiam tal processo. O contexto de ambos os textos torna essa premissa muito clara quando diz: "Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra." Atos 1:8

  • Premissa 3: A tarefa da evangelização do mundo ainda não está completa.

  • Conclusão: Portanto, a promessa deste poder extraordinário para manter e levar adiante o trabalho ainda é válida.

As lições da história que apoiam a nossa conclusão

Vemos lições na história que apoiam fortemente nossa conclusão, ou seja, ao longo do tempo podemos ver que os avanços cruciais para o evangelho vem por causa das periódicas efusões extraordinários do Espírito Santo. Jonathan Edwards, o líder do Grande Despertar, a 200 anos atrás, nos Estados Unidos, nos diz o seguinte:

Desde a queda do homem até os nossos dias, a obra da redenção tem sido principalmente exercida por notáveis [isto é, extraordinárias] comunicações do Espírito de Deus. Apesar de sempre haver uma influência constante do Espírito de Deus, em algum grau, para cumprir as ordenanças divinas, nos principais momentos históricos em que as maiores obras de Deus têm sido feitas para levar o seu trabalho adiante, observa-se um derramar notável do Espírito, em épocas especiais de misericórdia. (A História da Redenção, Obras, vol. 1, p. 539)

Em outras palavras, de tempos em tempos, Deus se move de forma extraordinária na história do movimento cristão. Ele tem derramado seu Espírito de uma forma nova, surpreendente e dramática em momentos cruciais da história. Esses tempos foram chamados tempos de avivamento, despertamento ou reforma.

Pentecostes foi o primeiro destes grandes derramamentos na igreja cristã, e até que a tarefa da evangelização do mundo seja concluída, eu acredito que é o nosso dever orar por estações novas do derramamento extraordinário do Espírito de Deus para despertar e capacitar a igreja e para penetrar as fronteiras finais de evangelização do mundo.

Então, o nosso texto em Atos 2 não está apenas relacionado a um evento, distante e irrepetível. Eu venho com a convicção de que temos muito a ganhar para os nossas vidas e ministérios se ao olharmos para o trabalho do Espírito Santo em Pentecostes.

"Pentecostes"

Vamos começar no versículo 1 de Atos 2, com a palavra "Pentecostes": "Quando o dia de Pentecostes ..." Por que Jesus escolheu Pentecostes como o dia em que ele iria derramar o Espírito sobre os discípulos? Há duas razões possíveis.

  1. Neste feriado judaico haveria uma grande quantidade de peregrinos em Jerusalém de todo o mundo. Era uma das três festas judaicas que geravam uma peregrinação à Cidade Santa. O evento ganhou esse nome, Pentecostes (quinquagésimo), a partir do fato de que ele ocorreu 50 dias após a Páscoa.

  2. Era uma festa da colheita. É assim que é chamado em Êxodo 23:16 (Deuteronômio 16:10). Em outras palavras, havia um significado simbólico lindo nesta data: o derramamento do Espírito Santo, com uma expressão extraordinária de poder, era para levar o testemunho de Cristo e a evangelização do mundo. E isto é exatamente uma grande colheita no campo de Deus, que é o mundo. E foi exatamente isso que aconteceu quando 3,000 pessoas foram colhidas por Deus e receberam a vida eterna no dia de Pentecostes, a festa da colheita.

É uma pena que o "poder pentecostal" tem sido associdado, para muitas pessoas, muito mais com o falar em línguas do que com a colheita da evangelização do mundo. Eu vou voltar a falar sobre ao milagre das líguas estranhas, mas gostaria de trazer clareza para você, neste momento, sobre o foco principal do evento: Pentecoste é uma festa de colheita em Jerusalém, e neste mesmo dia, Jesus derrama o Espírito com extraordinário poder e 3.000 pessoas são “colhidas” do reino das trevas para o reino de Deus.

"De repente"

Agora, veja comigo o versículo 2 e observe a palavra "de repente": "E de repente, um som veio do céu." Concentro-me nesta palavra para apontar que o Espírito Santo é livre e soberano e não está vinculado ao tempo de ninguém ou a alguma técnica para obter o seu poder. Somos depentendes de sua presença e graça diária, devemos andar na obediência da fé, e orar dia e noite para o derramamento do poder do alto. Mas, não podemos fazer o Espírito vir. Quando Ele vem, Ele vem de repente. Ele ama e Ele serve. Mas, Ele tem seu próprio tempo e modo. Ele sabe o que é melhor para nós.

No verão de 1871, duas mulheres da congregação Dwight L. Moody 1 sentiram uma carga incomum para orar por Moody "que o Senhor lhe daria o batismo do Espírito Santo e de fogo." Moody via as duas orando na primeira fila de sua igreja e ele começou a ficar irritado. Mas, logo ele cedeu e, em setembro começou a orar com elas todas as tardes de sexta-feira. Ele sentia como se seu ministério fosse se tornando um bronze que soa com pouco poder. Em 24 de novembro de 1871, o edifício da igreja de Moody foi destruído no grande incêndio de Chicago. Ele foi para Nova York em busca de ajuda financeira. Dia e noite ele iria andar pelas ruas desesperado pelo o toque do poder de Deus em sua vida. Então, de repente...

Um dia, na cidade de Nova York, oh, um dia que não posso descrevê-lo, eu raramente me refiro a ele! É uma experiência quase demasiadamente sagrada para contar. . . Eu só posso dizer que Deus se revelou para mim, e eu tive uma experiência do seu amor, tanto que eu tive que pedir-lhe para manter sua mão sobre mim. Voltei a pregar novamente. Os sermões não eram diferentes, eu não apresentara novas verdades, mas a diferença foi que centenas de almas foram convertidas. Eu não gostaria de voltar para onde eu estava antes desta experiência abençoada mesmos que você me desse o mundo todo. (WR Moody, A Vida de DL Moody, Nova York:. 1900, p 149)

Ele orou, ele obedeceu e esperou. Mas ele não fez o Espírito vir. Ele veio de repente. E quando ele veio, note que o efeito era pentecostal - desta vez não na experiência de línguas, mas na colheita. Quando o Espírito vem em poder, ele vem de repente, em seus próprios termos e no seu próprio tempo, e ele vem para a colheita.

Vento e Fogo

Em seguida, observe o vento e o fogo nos versículos 2 e 3: "E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles.” (Atos 2:2-3).

Às vezes, o Espírito Santo torna-se conhecido com visível, audível, com manifestações palpáveis. No Antigo Testamento, havia a coluna de nuvem e a coluna de fogo. No batismo de Jesus, havia a pomba. Em Atos 4, o prédio treme. No capítulo 6 a face de Estevão era como o rosto de um anjo. No capítulo 16 há um terremoto. Às vezes, o Espírito se inclina para nos dar manifestações palpáveis, visíveis e audíveis da sua presença e do seu poder.

Por que ele faz isso para alguns e outros não, e em algumas vezes e outras vezes, faz parte de sua sabedoria soberana. Ele não é o fogo. Ele não é o vento. Ele não é uma pomba. Ele não é um brilho especial. Então, ele não vai usar essas manifestações de uma forma que nos permita confundi-lo com elas. Ele é livre. Mas, quando ele se agrada, pode haver fogo e pode haver som.

A experiência de John White

John White, o psiquiatra, missionário e autor, nos fala de sua experiência de manifestação do Espírito:

Em uma ocasião, foi quando eu orava com os presbíteros e diáconos na minha casa. Eu tinha tentado ensinar-lhes o que era adoração. . . Em seguida, virei-me para a oração. Para ser um modelo para eles, comecei a expressar adoração, consciente da pobreza de minhas palavras. Então, de repente [observe a palavra!] Eu vi na minha frente uma coluna de fogo de cerca de dois metros de largura. Parecia surgir por baixo do chão e passar através do teto da sala. Eu sabia que - sabia de uma forma infalível e que transcendeu o uso do meu intelecto - que eu estava na presença do Deus de santidade. Com espanto eu assisti uma coluna de chamas subindo em nossa própria sala de estar, enquanto meus irmãos ficaram com suas cabeças inclinadas em silêncio e de olhos fechados...

Eu senti que eu estava na presença da realidade e que os meus irmãos estavam dormindo. Durante anos eu nunca falei do incidente. Os outros que estavam presentes não poderia ter percebido a mistura de terror absoluto e alegria que ameaçou varrer-me. Como eu poderia ver o que eu vi, e continuar vivo? Palavras ilegíveis de amor e de adoração saiam da minha boca enquanto eu lutava para manter meu auto-controle. Eu já não estava tentando adorar; a adoração estava desfazendo-me, levando-me para longe. E ser desfeito era tanto assustador, como cheio de glória. (Quando o Espírito vem com poder, p. 87-88)

De “Conhecer” para “Viver”

Isto é o que aconteceu, ao que parece, para os discípulos em Atos 2 quando viram línguas de fogo e ouviram o vento violento. Ele encheu-os com uma enorme sensação da presença de Deus. Até aquele momento, podemos imaginá-los orando (Atos 1:14) e recitando um ao outro o Salmo 23 e dizendo: "Ainda que eu ande pela sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo", e regozijando-se porque Deus estava com eles, ele estava ali naquela sala. Como é que eles sabiam disso? A Bíblia disse isso para eles. Do jeito que sabemos tantas coisas maravilhosas: "Jesus me ama, isso eu sei pois a Bíblia me diz."

Então, de repente acontece algo que transforma completamente o seu “conhecimento” da presença de Deus na “experiência” da presença de Deus. Eles vêem fogo sobre suas cabeças e eles ouvem um vento forte. E eles são preenchidos não apenas com uma certeza dedutiva da realidade da presença de Deus, baseada no Salmo 23, mas com uma certeza experimental baseada no derramamento extraordinário do Espírito Santo. O fogo começa a queimar em seus corações (Lucas 24:32) e em suas bocas ("línguas de fogo"), e o som do vento os rodeia e envolve com os sinais do poder de Deus. E eles estão simplesmente inundados com a grandeza de Deus. E eles começam a derramar-se em louvor e adoração. Como John White, eles são quase destruidos em adoração tanto que algumas pessoas disseram que eles estavam bêbados (v. 13).

Transbordando de Adoração e Louvor

A razão de eu dizer que eles estavam transbordando em adoração e louvor é por causa do versículo 11: "todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus.” (Atos 2:11). Lucas chama isto da plenitude do Espírito Santo, no versículo 4: "E todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem." Ser cheio do Espírito Santo aqui significa estar sobrecarregado com a grandeza de Deus. A tradução literal do versículo 11 é que eles estavam falando "as grandezas de Deus". Desde que o Espírito lhes concedia que falassem, e já que falavam sobre a grandeza de Deus, acredito que a plenitude do Espírito significa que a experiência do Espírito a respeito da grandeza de Deus se torna a nossa própria experiência.

As chamas em suas cabeças incendiaram o conhecimento de Deus, e o transformou em paixão. E a violência e intensidade do vento afogou todas as vozes insignificantes de dúvida e incerteza. E assim cada resquício de timidez, hesitação e fraqueza é engolido na experiência da grandeza de Deus. E uma tremenda ousadia, coragem e zelo foi desencadeada, e eles deram testemunho da grandeza de Deus.

Eles receberam a Essência da Plenitude

Essa é a essência da plenitude (ou o batismo Atos 1:4-5) que eles receberam – uma experiência avassaladora da grandeza de Deus e um transbordar em louvor, paixão e coragem para testemunhar. Eu não digo que o milagre de falar em outras línguas é o coração dessa experiência porque o Espírito caiu sobre a igreja novamente em Atos 04:31 e a casa foi abalada, e a plenitude, a paixão e ousadia estavam lá, mas não houve novas línguas. Nem havia vento e fogo. Em outras palavras, Deus parece dar qualquer manifestações que lhe agradar em diferentes momentos. Eles não são a essência da experiência.

O falar em línguas em Atos tinha um papel muito definido. Que está diretamente ligado à presença de pessoas de todas as nações que precisam entender as grandes coisas que os discípulos estavam dizendo. Em outras palavras, o milagre de línguas foi uma demonstração do poder soberano de Deus, e ele mostrou que este poder prometido em Atos 01:08 realmente tinha a intenção de avançar a expansão do evangelho até os confins da terra. Era um sinal de que Deus quer que todos os povos compreendam sua grandeza, e que ele está disposto a fazer milagres para fazer a sua glória conhecida entre as nações.

Espanto e perplexidade

Isso deixa apenas uma última observação a partir do texto. E isso acaba por ser uma advertência para nós. No versículo 12 a demonstração do poder de Deus no milagre de línguas provoca espanto e perplexidade entre todos. "E todos pasmavam e se maravilhavam" Mas a perplexidade deu lugar a duas respostas muito diferentes. Alguns perguntaram seriamente: "O que isso significa?" Outros (no versículo 13) escarneceram e saltaram para uma explicação naturalista: "Eles estão cheios de vinho novo".

Este é o cuidado: sempre que avivamento vem – sempre que o Espírito Santo é derramado em extraordinário poder – esta divisão acontece na comunidade cristã. Alguns genuinamente indagam sobre o que é, e testam todas as coisas e retem o que é bom. Outros ficam de fora e tiram sarro e anulam o entusiasmo como meramente humano ("Eles estão cheios de vinho novo.").

Há alguns sinais de que hoje estamos nos primeiros estágios de um despertar genuíno e generalizado. Não menos do que isso é o desejo eterno e motivo de oração no coração de tantos de nós. Queremos que Deus iria rasgue os céus, desça, reavive sua igreja e nos fortalecer para o impulso final de evangelização mundial. Se isso for verdade, o que precisamos é de muito mais corações abertos que dizem: "O que de fato é isso?" e que buscam por uma resposta bíblica.


1 Dwight Lyman Moody (5 de fevereiro de 1837 - 22 de dezembro de 1899), também conhecido como D.L. Moody, foi um evangelista e editor americano que fundou a Igreja Moody, a Escola Northfield, a Escola Mount Hermon em Massachusetts (agora chamada Escola Northfield Mount Hermon), o Instituto Bíblico Moody e a Moody Press.

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