O que acontece no novo nascimento? Parte 1

1 Havia, entre os fariseus, um homem chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus. 2 Este, de noite, foi ter com Jesus e lhe disse: “Rabi, sabemos que és mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer esses sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele”. 3 A isto, respondeu Jesus: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. 4 Perguntou-lhe Nicodemos: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez?”. 5 Respondeu Jesus: “Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. 6 O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito. 7 Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo. 8 O vento sopra onde quer, ouves–lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito”. 9 Então, perguntou-lhe Nicodemos: “Como pode suceder isso?”. 10Acudiu Jesus: “Tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas? [...].”

Começamos uma série de mensagens sobre o novo nascimento. Jesus disse a Nicodemos em João 3,3: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. Jesus falou para todos nós quando declarou isso. Nicodemos não era um caso especial. Você e eu precisamos nascer de novo, ou não veremos o reino de Deus. Significa que não seremos salvos; não seremos parte da família de Deus e não iremos para o céu; pelo contrário, iremos para o inferno.

Nicodemos era um dos fariseus, o mais religioso dos líderes judeus. Jesus disse a eles em Mateus 23,15 e 33: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito e, uma vez feito, fazeis dele um filho do inferno duas vezes pior do que vós mesmos! [...] Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?”. Portanto, a série que começamos não é de secundária importância. Ela é central. A eternidade está em jogo quando falamos com respeito ao novo nascimento. “Se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”.

O novo nascimento é indeterminado

Na primeira mensagem, na última vez, focamos nas razões para esta série e os tipos de questões que faríamos. A questão de hoje é: “O que acontece no novo nascimento?”. Antes de tentar responder a essa questão, permita-me mencionar uma preocupação muito séria que tenho sobre a forma como estas mensagens serão ouvidas. Estou ciente de que esta série de mensagens será imprevisível para muitos de vocês — exatamente como as palavras de Jesus são imprevisíveis para nós muitas vezes se as considerarmos seriamente. Há, pelo menos, três razões para isto:

1) Porque nossa condição é sem esperança

O ensino de Jesus relativo ao novo nascimento nos confronta com nossa falta de esperança espiritual, falta de integridade moral e nossa condição diante da lei de Deus à parte da graça regeneradora de Deus. Antes que o novo nascimento nos aconteça, estamos espiritualmente mortos. Somos moralmente egoístas e rebeldes. E somos legalmente culpados diante da lei de Deus e estamos sob sua ira. Quando Jesus nos diz que precisamos nascer de novo, ele diz que nossa presente condição é uma indiferença desesperadora, corrupta e culpada. À parte da graça maravilhosa em nossas vidas, não gostamos de ouvir a respeito de nós mesmos. Assim sendo, é imprevisível quando Jesus nos fala que precisamos nascer de novo.

2) Porque não podemos produzir o novo nascimento

Ensinar sobre o novo nascimento é imprevisível porque ele se refere a algo que é feito a nós, não algo que fazemos. João 1,13 enfatiza essa realidade. Ele se refere aos filhos de Deus como aqueles “que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. Pedro realça a mesma realidade: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo sua grande misericórdia, nos regenerou” (1 Pedro 1,3). Não produzimos o novo nascimento. Deus produz o novo nascimento. Qualquer coisa que façamos é o resultado do novo nascimento, não a causa do novo nascimento. Significa que o novo nascimento é retirado de nossas mãos. Ele não está em nosso controle. E assim ele nos confronta com a nossa impotência e nossa absoluta dependência de alguém além de nós mesmos.

O novo nascimento é imprevisível. Foi-nos dito que não veremos o reino de Deus se não nascermos de novo. E foi-nos dito também que por nós mesmos não podemos produzir o novo nascimento. Isso é imprevisível.

3) Porque a liberdade absoluta de Deus nos confronta

E a terceira razão porque o ensino de Jesus é imprevisível, portanto, é que ele nos confronta com a absoluta liberdade de Deus. Separados de Deus, somos espiritualmente mortos em nosso egoísmo e rebelião. Somos por natureza filhos da ira (Efésios 2,3). Nossa rebelião é tão profunda que não podemos detectar ou desejar a glória de Cristo no evangelho (2 Coríntios 4,4). Por conseguinte, se nascemos de novo, isso depende decisivamente e finalmente de Deus. Sua decisão de nos vivificar não é uma reação que nós, como cadáveres espirituais, temos, mas o que fazemos é uma reação ao ato de ele nos vivificar. Para a maioria das pessoas, pelo menos em uma primeira análise, isso é imprevisível.

Minha esperança: não ser imprevisível, mas transmitir segurança e a mensagem de salvação.

Assim, enquanto começo esta série, estou consciente de como imprevisível esse ensino sobre o novo nascimento pode se tornar. E o quanto desejo ser cuidadoso. Não quero causar às almas sensíveis qualquer aflição desnecessária. E não quero transmitir uma falsa esperança para aqueles que confundem moralidade ou religião como vida espiritual. Por favor, orem por mim. Sinto como se estivesse tomando em minhas mãos almas eternas nestes dias. E, contudo, sei que não tenho poder em mim mesmo para dar a elas vida. Mas Deus pode fazer isso. E estou muito esperançoso que ele fará o que é dito em Efésios 2,4-5: “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, impulsionado pelo grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, deu-nos a vida juntamente com Cristo — é por graça que fostes salvos”. Deus ama magnificar as riquezas de sua graça que concede vida onde Cristo é exaltado em verdade. Esta é a minha esperança: que esta série não será imprevisível, mas trará segurança e redenção.

Que acontece no novo nascimento?

Assim, vamos nos voltar agora para a questão: o que acontece no novo nascimento? Vou tentar expressar a resposta em três afirmações. As duas primeiras lidarão com o hoje e a terceira lidará com a próxima semana (se o Senhor permitir). 1) O que acontece no novo nascimento não é ter uma nova Religião, mas ter nova vida. 2) O que acontece no novo nascimento não é meramente afirmar o sobrenatural em Jesus, mas experimentar o sobrenatural em você mesmo. 3) O que acontece no novo nascimento não é o progresso de sua velha natureza humana — uma natureza que é realmente você, e é perdoada e purificada; e uma natureza que é realmente nova, e está sendo formada pela habitação do Espírito de Deus. Vamos considerar essas afirmações, uma de cada vez.

1) Nova vida, não uma nova religião

O que acontece no novo nascimento não é ter uma nova religião, mas uma nova vida. Leiam comigo os três primeiros versículos de João 3: “Havia, entre os fariseus, um homem chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus. Este, de noite, foi ter com Jesus e lhe disse: ‘Rabi, sabemos que és mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer esses sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele’. A isso, respondeu Jesus: ‘Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus’”.

João se certifica de que saibamos que Nicodemos é um fariseu e um líder dos judeus. Os fariseus foram os religiosos mais rigorosos de todos os grupos judeus. A este Jesus diz (no versículo 3): “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. E até de forma mais pessoal no versículo 7: “Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo”. Desse modo, um dos conceitos de João é: toda a religião de Nicodemos, todo o seu maravilhoso estudo do farisaísmo, disciplina e cumprimento da lei não podem substituir a necessidade do novo nascimento. De fato, eles podem tornar mais patente a necessidade do novo nascimento.

Do que Nicodemos precisa, você e eu precisamos, não é religião, mas vida. O fato de se referir ao novo nascimento é que o nascimento gera uma nova vida no mundo. Em um sentido, é claro, Nicodemos está vivo. Ele respira, pensa, sente e age. Ele é humano, criado à imagem de Deus. Mas, evidentemente, Jesus considera que ele está morto. Não há vida espiritual em Nicodemos. Espiritualmente, ele não nasceu. Ele precisa de vida, não mais atividades religiosas ou mais zelo religioso. Ele tem isso em abundância.

Você se lembra de que Jesus disse em Lucas 9,60 ao homem que queria protelar o ato de segui-lo para que ele pudesse sepultar o pai? Jesus disse: “Deixa que os mortos sepultem seus mortos”. Significa que há pessoas fisicamente mortas que precisam ser sepultadas. E há pessoas espiritualmente mortas que podem sepultá-los. Em outras palavras, Jesus pensou em termos de pessoas que caminham normalmente e aparentam bastante ter vida e estão mortas. Nessa parábola sobre o filho pródigo, o Pai diz: “Este meu filho estava morto e reviveu” (Lucas 15,24).

Nicodemos não precisava de Religião; ele precisava de vida — vida espiritual. O que acontece no novo nascimento é que a vida gerada não existia antes. A nova vida acontece no novo nascimento. Não é atividade religiosa ou disciplina ou decisão. É a existência da vida. É a primeira forma de descrever o que acontece no novo nascimento.

2) A experiência do sobrenatural, não apenas sua afirmação

O que acontece no novo nascimento não é meramente a afirmação do sobrenatural em Jesus, mas a experiência do sobrenatural em si mesma. No versículo 2, Nicodemos diz: “Rabi, sabemos que és mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele”. Expressando de outro modo, Nicodemos vê em Jesus uma atividade divinamente genuína. Ele admite que Jesus procede de Deus. Jesus faz as obras de Deus. A isso, Jesus não responde por dizer: “Eu queria que todos na Palestina pudessem ver a verdade que você pode ver a respeito de mim”. Em vez disso, ele diz: “Você precisa nascer de novo ou nunca verá o reino de Deus”.

Ver sinais e maravilhas e ficar estupefato por eles e honrar o operador de milagres por elas ao dizer que ele procede de Deus, não salva ninguém. Esse é um dos grandes perigos dos sinais e maravilhas: você não precisa de um novo coração para ficar maravilhado por elas. A antiga natureza humana caída é todo o necessário para ficar estupefato com os sinais e as maravilhas. E a antiga natureza humana caída deseja dizer que o operador de milagres é de Deus. O próprio diabo sabe que Jesus é o Filho de Deus e opera milagres (Marcos 1,24). Não, Nicodemos, vendo-me como um operador de milagres enviado por Deus não é a chave para o reino de Deus. “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”.

Em outras palavras, não é relevante meramente afirmar o sobrenatural em Jesus, mas experimentar o sobrenatural em você mesmo. O novo nascimento é sobrenatural, não natural. Não pode ser explicado pelas coisas encontradas neste mundo. O versículo 6 enfatiza a natureza sobrenatural do novo nascimento: “O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito”. A carne é o que somos naturalmente. O Espírito de Deus é a Pessoa sobrenatural que gera o novo nascimento. Jesus diz novamente no versículo 8: “O vento sopra onde quer, ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito”. O Espírito não é parte deste mundo natural. Ele está acima da natureza. É sobrenatural. De fato, ele é Deus. Ele é a causa imediata do novo nascimento.

Assim, Nicodemos, diz Jesus, o que acontece no novo nascimento não é meramente uma afirmação do sobrenatural em mim, mas a experiência do sobrenatural em si mesmo. Você precisa nascer de novo. E não de uma forma naturalmente metafórica, mas do modo sobrenatural. Deus Espírito Santo precisa vir até você e trazer à existência nova vida.

Examinaremos na próxima vez as palavras no versículo 5: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. A que se refere a água e o Espírito nesse texto? E como essas palavras nos ajudam a entender o que acontece no novo nascimento?

Jesus é a vida

Hoje quero concluir fazendo uma conexão fundamental entre nascer de novo pelo Espírito e ter vida eterna pela fé em Jesus. O que temos visto até agora é o que ocorre no novo nascimento: uma obra sobrenatural pelo Espírito Santo para gerar vida espiritual onde não existia. Jesus declara isso uma vez mais em João 6,63: “O Espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita”.

Mas o Evangelho de João esclarece um fato também: Jesus é a vida que o Espírito Santo concede. Ou poderíamos dizer: a vida espiritual que ele concede, ele somente concede em conexão com Jesus. A união com Jesus existe onde experimentamos a vida espiritual e sobrenatural. Jesus disse em João 14,6: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”. Em João 6,35 ele disse: “Eu sou o pão da vida”. E em João 20,31, João afirma: “Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome”.

Não há vida aparte de Jesus

Portanto, não há vida espiritual — vida eterna — sem a união com Jesus e a fé nele. Teremos muito o que dizer sobre o relacionamento entre o novo nascimento e a fé em Jesus. Mas vamos expressar isso assim para o momento: no novo nascimento, o Espírito Santo nos une a Cristo em uma união viva. Cristo é vida; é a videira de onde a vida flui. Somos os ramos (João 15,1). No novo nascimento, ocorre a criação sobrenatural da nova vida espiritual e ela é criada por meio da união com Jesus Cristo. O Espírito Santo nos leva a uma união vital com Cristo, que é o caminho, a verdade e a vida. Essa é a realidade objetiva do que acontece no novo nascimento.

E de nosso lado — a forma que experimentamos isso —,a fé em Jesus é despertada em nossos corações. A vida espiritual e a fé em Jesus existem juntas. A nova vida torna a fé possível e, visto que a vida espiritual sempre desperta a fé e se expressa em fé, não há fé sem fé em Jesus. Portanto, não devemos separar o novo nascimento da fé em Jesus. Do lado de Deus, somos unidos a Cristo no novo nascimento. É isso o que o Espírito Santo faz. De nosso lado, experimentamos essa união pela fé em Jesus.

Nunca separe o novo nascimento e a fé em Jesus

Atente para a forma como João expressa o novo nascimento e a fé juntos em 1 João 5,4: “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esa é a vitória que vence o mundo: a nossa fé”. Nascer de Deus — o segredo para a vitória. Fé: o segredo para a vitória. Porque a fé é a forma pela qual experimentamos o nascimento de Deus.

Ou atente para o modo como João diz em 1 João 5,11-12: “E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está no seu Filho. Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus, não tem a vida”. Portanto, quando Jesus declara: “O Espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita” (João 6,63), e quando ele diz: “Você precisa nascer do Espírito” para ter vida, ele quer dizer: no novo nascimento, o Espírito Santo, de forma sobrenatural, concede–nos vida nova e espiritual por nos unir com Jesus Cristo pela fé. Assim, Jesus é vida.

Desse modo, nunca separem essas duas afirmações de Jesus em João 3: “Se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (v. 3) e “Quem crê no Filho tem a vida eterna” (v. 36).

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