Existem Duas Vontades em Deus?

Eleição Divina e o Desejo de Deus para que Todos Sejam Salvos

Meu objetivo aqui é mostrar nas Escrituras que a existência simultânea da vontade de Deus "que todos os homens se salvem" (1 Tm. 2:4) e sua vontade de eleger incondicionalmente todos que, de fato, serão salvos não é um sinal de esquizofrenia divina ou confusão exegética. Um objetivo correspondente é demostrar que a eleição incondicional, portanto, não contradiz as expressões bíblicas da compaixão de Deus por todas as pessoas, e não anula a oferta sincera de salvação para aqueles que estão perdidos dentre todos os povos do mundo.

1 Timóteo 2:4, 2 Pedro 3:9 e Ezequiel 18:23 podem ser considerados textos pilares dos arminianos em referência a vontade salvífica universal de Deus. Em 1 Timóteo 2:1-4, Paulo diz que a razão pela qual devemos orar por reis e todos que se acham investidos de autoridade é que isto pode trazer uma vida quieta e sossegada, que é algo "bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer (thelei) que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade." Em 2 Pedro 3:8-9, o apóstolo diz que a demora da Segunda Vinda de Cristo se deve ao fato que para o Senhor um dia é como mil anos e mil anos como um dia. "O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; porém é longânimo para convosco, não querendo (boulomenos) que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se." E em Ezequiel 18:23 e 32 o Senhor fala sobre seu coração pelos que se perdem: "Desejaria eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio? diz o Senhor DEUS; Não desejo antes que se converta dos seus caminhos, e viva? ... Porque não tenho prazer (ehephoz) na morte do que morre, diz o Senhor DEUS; convertei-vos, pois, e vivei." (cf 33.11).

É possível que uma exegese cuidadosa de 1 Timóteo 2:4 nos levasse a acreditar que "a vontade de Deus para que todos sejam salvos" não se refere a cada indivíduo no mundo, mas antes para todos os tipos de pessoas, pelo fato que "todos os homens" no verso 1 pode significar grupos como "reis e todos em altas posições" (v.2). Também é possível que o "convosco" em 2 Pedro 3:9 ("é longânimo para conosco, não querendo que ninguém se perca") refira-se não a cada pessoa no mundo, mas para nós cristãos confessos que, como Adolf Schlater diz, "são pessoas que apenas através do arrependimento podem alcançar a graça de Deus e a herança prometida."

Todavia, o caso desta limitação na vontade salvífica universal de Deus nunca foi convincente para arminianos, e é provável que não se tornará convincente, especialmente porque Ezequiel 18:23, 32 e 33:11 são ainda menos tolerantes da restrição. Portanto, como um crente sincero na eleição individual e incondicional, eu me regozijo em afirmar que Deus não se deleita na morte do ímpio, e que Ele tem compaixão por todas as pessoas. Meu objetivo é mostrar que esta não é conversa dúbia.

A atribuição desde capítulo não é defender a doutrina de que Deus escolhe incondicionalmente aqueles que irá salvar. Eu tentei fazer isto em outro lugar e outros o fazem neste livro. Não obstante, eu tentarei criar um argumento plausível de que, enquanto os textos pilares arminianos possam ser, de fato, pilares para o amor universal, não são, no entanto, armas contra a eleição incondicional. Se eu tiver sucesso, então, haverá uma indireta confirmação da tese deste livro. De fato, penso que arminianos tem errado em tentar pegar os pilares de amor universal e torná-los em armas contra a graça eletiva.

Afirmar a vontade de Deus de salvar todos, enquanto também afirmar a eleição incondicional de alguns, implica em pelo menos "duas vontades" de Deus, ou duas formas de vontade. Isto implica que Deus decreta um estado de coisas, enquanto deseja e ensina que outro estado de coisas venha a acontecer. Esta distinção entre as vontades de Deus tem sido expressada de várias formas através dos séculos. Isto não é nova invenção. Por exemplo, teólogos já falaram de vontade moral e vontade soberana, vontade eficiente e vontade permissiva, vontade secreta e vontade revelada, vontade de decreto e vontade de comando, vontade decretiva e vontade preceptiva, voluntas signi (vontade assinada) e voluntas beneplaciti (vontade de bom prazer), etc.

Clark Pinnock refere-se de maneira desaprovadora sobre "a noção extremamente paradoxal de duas vontades divinas a respeito da salvação". No volume mais recente de Pinnock (A Case for Arminianism), Randall Basinger argumenta que "se Deus decretou todos os eventos, então logicamente as coisas não podem e não devem ser diferentes do que elas são." Em outras palavras, ele rejeita a noção de que Deus poderia decretar que uma coisa seja de uma maneira e ainda ensinar que devemos agir para fazê-la de outra forma. Ele diz que é muito difícil "conceber coerentemente um Deus em que esta distinção realmente exista".

No mesmo volume, Fritz Guy argumenta que a revelação de Deus em Cristo trouxe uma "mudança de paradigma" na forma como devemos pensar sobre o amor de Deus - a saber como "mais fundamental, e prioritário, que a justiça e o poder." Esta mudança, diz ele, torna possível pensar sobre a “vontade de Deus” como "deleitando-se mais do que decidindo". A vontade de Deus não seria o seu propósito soberano que Ele estabelece infalivelmente, mas sim "o desejo do amante para o amado”. A vontade de Deus é a sua intenção e desejos gerais, e não seu propósito efetivo. Dr. Guy vai tão longe que chega a dizer: "Aparte de uma pressuposição predestinatória, torna-se evidente que a vontade de Deus deve sempre (sic) ser entendida em termos de intenção e desejo [ao contrário do propósito soberano, eficaz]."

Estas críticas não são novas. Jonathan Edwards escreveu há 250 anos, "Os arminianos ridicularizam a distinção entre a vontade secreta e revelada de Deus, ou, mais propriamente expressado, a distinção entre o decreto e a lei de Deus; porque nós dizemos que Ele pode decretar uma coisa, e ordenar outra. E assim, argumentam eles, temos uma contrariedade em Deus, como se uma dessas vontades contradissesse a outra."

Mas apesar destas críticas, a distinção permanece, não por causa de uma dedução lógica ou teológica, mas porque é inevitável nas Escrituras. O exegeta mais cuidadoso do livro de Pinnock A Case for Arminianism (Uma defesa do Arminianismo) admite a existência de duas vontades em Deus. I. Howard Marshall aplica seu dom exegético para as Epístolas Pastorais. Com respeito a 1 Timóteo 2:4 ele diz:

“Para evitar qualquer mal-entendido, deve ficar claro desde já que o fato de Deus querer ou desejar que todas as pessoas sejam salvas, não implica necessariamente que todos responderão ao evangelho e serão salvos. Nós devemos certamente distinguir entre o que Deus gostaria de ver acontecer e o que ele realmente deseja que aconteça, e ambas as coisas podem ser ditas como sendo vontade de Deus. A questão em debate não é se todos serão salvos, mas se Deus fez provisão em Cristo para a salvação de todos, desde que eles creiam, e sem limitar o escopo potencial da morte de Cristo meramente para aqueles que Deus sabia que viriam a crer.”

Neste capítulo eu gostaria de embasar o ponto de Marshall de que "nós devemos certamente distinguir entre o que Deus gostaria de ver acontecer e o que ele realmente deseja que aconteça, e [que] ambas as coisas podem ser ditas como sendo vontade de Deus”. Talvez a maneira mais eficaz de fazer isso é começar por chamar a atenção para a forma como a Bíblia retrata Deus querendo algo em um sentido, que desaprova em outro sentido. Então, depois de ver algumas das evidências bíblicas, poderemos retroceder e refletir sobre como compreender isso em relação aos propósitos salvíficos de Deus.

Ilustrações das Duas Vontades em Deus

A Morte de Cristo

O exemplo mais convincente da vontade de Deus de que o pecado venha a ocorrer enquanto ao mesmo tempo desaprova o pecado é a morte de seu perfeito, divino Filho. A traição de Jesus por Judas foi um ato moralmente mau inspirado de forma imediata por Satanás (Lucas 22:3). No entanto, em Atos 2:23 Lucas diz: “Esse Jesus [foi] entregue pelo determinado desígnio (boule) e presciência de Deus”. A traição foi pecado, e envolveu a instrumentalidade de Satanás; mas era parte de um plano ordenado de Deus. Ou seja, há um sentido no qual Deus quis a entrega de seu Filho, apesar do ato ter sido um pecado.

Além disso, o desprezo de Herodes por Jesus (Lucas 23:11), a conveniência covarde de Pilatos (Lucas 23:24), o "Crucifica-o! Crucifica-o!" dos judeus (Lucas 23:21) e a zombaria dos soldados gentios "(Lucas 23:36), também foram atitudes e atos pecaminosos. No entanto, em Atos 4:27-28, Lucas expressa seu entendimento da soberania de Deus nestes atos ao registrar a oração dos santos de Jerusalém:

"Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel; para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho (boule) tinham anteriormente determinado que se havia de fazer.

Herodes, Pilatos, os soldados e a multidão dos judeus levantaram suas mãos para se rebelarem contra o Altíssimo, apenas para descobrir que sua rebeldia foi um serviço (inconsciente) dos inescrutáveis desígnios de Deus.

A terrível morte de Cristo foi vontade e obra de Deus Pai. Isaías escreveu: "E nós o reputávamos por aflito, ferido por Deus... ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar" (Isaías 53:4,10). A vontade de Deus estava muito engajada nos eventos que levaram seu Filho até a morte na cruz. Deus considerou que "convinha que se consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles" (Hebreus 2:10). No entanto, como Jonathan Edwards aponta, o sofrimento de Cristo "não poderia vir a acontecer, a não ser pelo pecado. Porque desprezo e vergonha eram coisas que Ele deveria sofrer."

É quase desnecessário dizer que Deus quer obediência à sua lei moral, e que Ele quer isso de uma maneira que pode ser rejeitada por muitos. Isto é evidente a partir de vários textos: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade (thelema) de meu Pai, que está nos céus." (Mateus 7:21). "Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe.'' (Mateus 12:50). "Aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente." (1 João 2:17). A ''vontade de Deus" nesses textos é a instrução revelada e moral, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, que proíbe o pecado.

Portanto, sabemos que não era a ''vontade de Deus" que Judas, Pilatos, Herodes, os soldados gentios e a multidão de judeus desobedecessem a lei moral de Deus, pecando em entregar Jesus para ser crucificado. Mas também sabemos que foi a vontade de Deus que isso viesse a acontecer. Dessa forma sabemos que Deus, em algum sentido, quer o que Ele não quer em outro sentido. A declaração de I. Howard Marshall é confirmada pela morte de Jesus: "Nós devemos certamente distinguir entre o que Deus gostaria de ver acontecer e o que ele realmente deseja que aconteça”.

A Guerra Contra o Cordeiro

Há duas razões para que nossa próxima parada seja Apocalipse 17:16-17. Uma delas é que a guerra contra o Filho de Deus, que atingiu seu clímax de pecaminosidade na cruz, tem sua consumação final de um modo que confirma o que temos visto sobre a vontade de Deus. A outra razão é que este texto revela o entendimento de João da participação ativa de Deus no cumprimento das profecias cujo cumprimento envolve pecado. João tem uma visão de alguns eventos finais da história:

'Os dez chifres que viste e a besta, esses odiarão a meretriz, e a farão devastada e despojada, e lhe comerão as carnes, e a consumirão no fogo. Porque em seu coração incutiu Deus que realizem o seu pensamento, o executem à uma e dêem à besta o reino que possuem, até que se cumpram as palavras de Deus.'(Apocalipse 17:16-17).

Sem entrar em todos os detalhes dessa passagem, a questão relevante é clara. A besta "sai do abismo" (Apocalipse 17:8). Ela é a personificação do mal e da rebelião contra Deus. E os dez chifres são dez reis (v. 12) e eles “empreenderam guerra contra o Cordeiro" (v. 14).

Empreender guerra contra o Cordeiro é pecado e pecado é contrário à vontade de Deus. No entanto, o anjo diz (literalmente), "Porque Deus tem posto em seus corações [dos dez reis], que cumpram o seu intento, e tenham uma mesma idéia, e que dêem à besta o seu reino, até que se cumpram as palavras de Deus.'' (v. 17). Por isso, Deus quis (em um sentido) influenciar o coração dos dez reis de forma que eles pudessem fazer o que é contra a sua vontade (em outro sentido).

Além disso, Deus fez isso no cumprimento das palavras proféticas. Os dez reis irão colaborar com a besta "até que se cumpram as palavras de Deus" (v. 17). Isto implica algo crucial sobre o entendimento de João do cumprimento das "profecias que levaram à queda do Anticristo." Isso implica que (pelo menos do ponto de vista de João) as profecias de Deus não são meras previsões que Deus sabe que acontecerão, mas sim as intenções divinas que ele garante que irá acontecer. Sabemos disso porque o versículo 17 diz que Deus está agindo para fazer com que os dez reis façam aliança com a besta "até que se cumpram as palavras de Deus". João não está exultante com a maravilhosa presciência de Deus em prever um acontecimento ruim. Ao contrário, ele está exultante com a maravilhosa soberania de Deus de fazer certo que esse evento ruim venha a acontecer. A profecia cumprida, na mente de João, não é apenas previsão, mas também a promessa executada.

Isto é importante porque João nos diz em seu Evangelho que haviam profecias do Antigo Testamento sobre os eventos que cercaram a morte de Cristo que envolvem pecado. Isto significa que Deus queria produzir eventos que envolvem coisas que ele proíbe. Estes eventos incluem a traição de Judas a Jesus (João 13:18; Salmo 41:9), o ódio que Jesus recebeu de seus inimigos (João 15:25; Salmo 69:4; 35:19), o lançar sorte pelas roupas de Jesus (João 19:24, Salmo 22:18), e a perfuração do lado de Jesus (João 19:36-37; Êxodo 12:46, Salmos 34:20, Zacarias 12:10). João expressa sua teologia da soberania de Deus com as palavras: "Estas coisas aconteceram para que a Escritura fosse cumprida.'' Em outras palavras, os eventos não foram uma coincidência que Deus meramente previu, mas um plano que Deus propôs realizar. Assim, novamente encontramos as palavras de I. Howard Marshall confirmadas: "Nós devemos certamente distinguir entre o que Deus gostaria de ver acontecer e o que Ele realmente deseja que aconteça"

A obra de Endurecimento de Deus

Outra evidência com o fim de demonstrar Deus desejando um estado de coisas em um sentido que Ele desaprova em outro é o testemunho da Escritura de que Deus quis endurecer o coração de alguns homens para que eles se tornassem obstinados em comportamento pecaminoso, o qual Deus desaprova.

O exemplo mais bem conhecido é o endurecimento do coração de Faraó. Em Êxodo 8:1 o Senhor diz a Moisés: “Depois, disse o SENHOR a Moisés: Chega-te a Faraó e dize-lhe: Assim diz o SENHOR: Deixa ir o meu povo, para que me sirva." Em outras palavras, a ordem de Deus, ou seja, a sua vontade, é que o Faraó deveria deixar ir os israelitas. No entanto, desde o início, Ele também não quis que o Faraó deixasse ir os israelitas. Em Êxodo 4:21 Deus diz a Moisés: "Quando voltares ao Egito, vê que faças diante de Faraó todos os milagres que te hei posto na mão; mas eu lhe endurecerei o coração, para que não deixe ir o povo." Em um momento o próprio Faraó reconhece que sua relutância em deixar ir o povo é pecado: "Agora, pois, peço-vos que me perdoeis o pecado esta vez ainda" (Êxodo 10:17). Assim, o que vemos é que Deus ordenou Faraó fazer uma coisa que o próprio Deus não iria permitir. A boa coisa que Deus ordena Ele evita. E a coisa que Ele faz com que aconteça envolve pecado.

Alguns tentaram se esquivar dessa implicação, salientando que durante as primeiras cinco pragas o texto não diz explicitamente que Deus endureceu o coração do Faraó, mas que ele "estava endurecido" (Êxodo 7:22; 8:19; 9:7) ou que o Faraó endureceu seu próprio coração (Êxodo 8:15,32), e que somente na sexta praga é dito explicitamente "o Senhor endureceu o coração de Faraó" (9:12; 10:20,27; 11:10; 14:4). R.T. Forster e V.P. Marston, por exemplo, dizem que somente a partir da sexta praga que Deus deu a Faraó "força sobrenatural para continuar com o seu caminho mau de rebeldia".

Mas esta observação não sucede em esquivar-se da evidência das duas vontades em Deus. Mesmo se Forster e Marston estiverem certos de que Deus não queria que o coração do Faraó fosse endurecido durante as primeiras cinco pragas, eles admitem que nas últimas cinco pragas Deus quis fazer isso, pelo menos no sentido de reforçar Faraó para continuar no caminho de rebelião. Assim, há um sentido em que Deus quis que o Faraó continuasse a recusar deixar ir o povo, e há um sentido em que Ele queria que o Faraó libertasse o povo. Pois ele ordena: "Deixa meu povo ir." Isto ilustra por que os teólogos falam sobre a "vontade de comando" ("Deixe ir o meu povo!") e a "vontade de decreto" ("o Senhor endureceu o coração de Faraó").

O Êxodo não é o único lugar em que Deus age dessa maneira. Quando o povo de Israel chegou à terra de Siom, rei de Hesbom, Moisés enviou mensageiros "com palavras de paz, dizendo: deixa-me passar pela tua terra; somente pela estrada irei" (Deuteronômio 2:26-27). Mesmo que este pedido tivesse levado Siom a tratar o povo de Deus com respeito, porque Deus queria que seu povo fosse abençoado e não atacado, todavia "Mas Siom, rei de Hesbom, não nos quis deixar passar por sua terra, porquanto o SENHOR, teu Deus, endurecera o seu espírito e fizera obstinado o seu coração, para to dar nas mãos, como hoje se vê." (Deuteronômio 2:30). Em outras palavras, era a vontade de Deus (em um sentido) que Siom agisse de uma maneira que era contrária à vontade de Deus (em outro sentido) que Israel fosse abençoado e não amaldiçoado.

Da mesma forma, a conquista das cidades de Canaã se deve a Deus querer que os reis da terra resistissem a Josué, ao invés de entrar em paz com ele. “Não houve cidade que fizesse paz com os filhos de Israel, senão os heveus, moradores de Gibeom; por guerra as tomaram todas. Porquanto do SENHOR vinha o endurecimento de seus corações, para saírem à guerra contra Israel, para que fossem totalmente destruídos e não achassem piedade alguma; mas para os destruir a todos como o SENHOR tinha ordenado a Moisés” (Josué 11:19-20). Em vista disto, é difícil imaginar o que Fritz Guy quer dizer quando diz que a "vontade de Deus" deve sempre ser pensada em termos de desejo e intenção amorosa, e não em termos de efetivo propósito de julgamento de Deus.” O que parece mais simples é que, quando chegou a hora do julgamento, Deus quis que o culpado fizesse coisas que são contra a Sua vontade revelada, como amaldiçoar Israel, ao invés de abençoá-la.

A obra de endurecimento por Deus não foi limitada aos não-israelitas. Na verdade ela desempenha um papel central na vida de Israel neste período da história. Em Romanos 11:7-9 Paulo fala do fracasso de Israel em obter justiça e salvação desejada: "O que Israel busca, isso não conseguiu; mas a eleição o alcançou; e os mais foram endurecidos, como está escrito: "Deus lhes deu espírito de entorpecimento, olhos para não ver e ouvidos para não ouvir, até ao dia de hoje". Mesmo que seja o mandamento de Deus que seu povo veja, ouça e responda em fé (Isaías 42:18), no entanto, Deus também tem suas razões para enviar o espírito de entorpecimento, por vezes, de modo que alguns não obedeçam seus mandamentos.

Jesus expressou essa mesma verdade, quando Ele explicou que um dos propósitos de falar em parábolas aos judeus de sua época era trazer sobre estes cegueira judicial ou entorpecimento. Em Marcos 4:11-12, Ele disse aos seus discípulos: "A vós outros vos é dado conhecer o mistério do reino de Deus; mas, aos de fora, tudo se ensina por meio de parábolas, para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não venham a converter-se, e haja perdão para eles." Aqui, novamente Deus quer que uma condição prevaleça, sendo que Ele a considera censurável. Sua vontade é que eles se arrependam e sejam perdoados (Marcos 1:15), mas Ele age de forma a restringir a realização dessa vontade.

Paulo retrata esse endurecimento divino, como parte de um plano global que envolverá a salvação do judeus e dos gentios. Em Romanos 11:25-26, ele diz a seus leitores gentílicos, "Porque não quero, irmãos, que ignoreis este mistério (para que não sejais presumidos em vós mesmos): que veio endurecimento em parte a Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios. E, assim, todo o Israel será salvo". O fato de que o endurecimento tem um alvo final "até que haja entrado a plenitude dos gentios" demonstra que é parte do plano de Deus ao invés de um evento meramente contingente fora do Seu propósito. No entanto Paulo expressa não só o seu, mas também o coração de Deus quando diz em Romanos 10:1, "Irmãos, a boa vontade do meu coração e a minha súplica a Deus a favor deles [Israel] são para que sejam salvos". Deus estende as mãos a um povo rebelde (Romanos 10:21), mas ordena um endurecimento que os entrega por um tempo a desobediência.

Este é o ponto de Romanos 11:31-32. Paulo fala aos seus leitores gentílicos novamente sobre a desobediência de Israel na rejeição de seu Messias: "Assim também estes [Israel] agora foram desobedientes, para também alcançarem misericórdia pela misericórdia a vós [gentios] demonstrada". Quando Paulo diz que Israel foi desobediente "a fim de que" os gentios pudessem obter os benefícios do evangelho, qual era o propósito que ele tinha em mente? Isso só pode ser Deus. Porque Israel não concebeu sua própria desobediência como uma forma de abençoar os gentios, ou ganhar a misericórdia para si, ou algo em torno disso. O ponto de Romanos 11:31, portanto, é que o endurecimento de Israel por Deus não é um fim em si, mas faz parte de um propósito de salvação que abrangerá todas as nações. Mas, no curto prazo, temos de dizer que Ele quer uma condição (dureza de coração), a qual Ele ordena as pessoas a lutarem contra ("Não endureçais o vosso coração" Hebreus 3:8, 15; 4:7).

O Direito de Deus Restringir o Mal e Sua Vontade de Não Fazer Isso

Outra linha da evidência bíblica de que Deus às vezes quer fazer acontecer o que Ele desaprova é sua escolha de usar ou não usar seu direito de restringir o mal no coração humano.

Provérbios 21:1 diz, "Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR; este, segundo o seu querer, o inclina." Um exemplo deste direito divino sobre o coração do rei é dado em Gênesis 20. Abraão estava peregrinando em Gerar e disse ao rei Abimeleque que Sara era sua irmã. Então Abimeleque, a toma como parte de seu harém. Mas Deus fica descontente e o avisa em um sonho que ela é casada com Abraão. Abimeleque protesta a Deus que ele a tinha tomado na sua integridade. E Deus diz (no versículo 6): “Bem sei eu que na sinceridade do teu coração fizeste isto; e também eu te tenho impedido de pecar contra mim; por isso não te permiti tocá-la.”

O que é evidente aqui é que Deus tem o direito e o poder para restringir os pecados dos governantes seculares. Quando Ele faz, é Sua vontade fazê-lo. E quando Ele não faz, é Sua vontade não fazê-lo. O que quer dizer que às vezes Deus quer que seus pecados sejam restringidos e outras vezes Ele quer que eles aumentem mais do que se os tivesse restringido.

Não é uma injusta violação sobre a agência humana que o Criador tenha o direito e o poder de restringir as ações más das suas criaturas. Salmo 33:10-11 diz: "O SENHOR frustra os desígnios das nações e anula os intentos dos povos. O conselho do SENHOR dura para sempre; os desígnios do seu coração, por todas as gerações”. Às vezes, Deus frustra a vontade dos governantes fazendo seus planos falharem. Às vezes Ele faz isso ao influenciar seus corações da mesma maneira como Ele fez com Abimeleque, mesmo que eles não saibam disso.

Mas há momentos em que Deus não usa esse direito, porque Ele tem a intenção de fazer a maldade humana seguir seu curso. Por exemplo, Deus queria matar os filhos de Eli. Portanto, Ele quis que eles não ouvissem os conselhos de seu pai: "Era, porém, Eli já muito velho e ouvia tudo quanto seus filhos faziam a todo o Israel e de como se deitavam com as mulheres que serviam à porta da tenda da congregação. E disse-lhes: Por que fazeis tais coisas? Pois de todo este povo ouço constantemente falar do vosso mau procedimento. Não, filhos meus, porque não é boa fama esta que ouço; estais fazendo transgredir o povo do Senhor. Pecando o homem contra o próximo, Deus lhe será o árbitro; pecando, porém, contra o Senhor, quem intercederá por ele? Entretanto, não ouviram a voz de seu pai, porque o Senhor os queria matar." (1 Samuel 2:22-25).

Por que os filhos de Eli não deram ouvidos aos bons conselhos de seu pai? A resposta do texto é "porque o Senhor os queria matar". Isto só faz sentido se o Senhor tivesse o direito e o poder para restringir a sua desobediência - direito e poder que Ele não quis usar. Assim, devemos dizer que em um sentido, Deus quis que os filhos de Eli continuassem fazendo o que Ele ordenou-lhes que não fizessem: desonrar o pai e cometer imoralidade sexual.

Além disso, a palavra "queria" da cláusula "o Senhor os queria matar", é a mesma palavra hebraica (haphez) utilizada em Ezequiel 18:23,32 e 33:11, onde Deus afirma que Ele não deseja a morte do ímpio. Deus desejou matar os filhos de Eli, mas Ele não deseja a morte do ímpio. Esta é uma forte advertência para não tomarmos uma afirmação, como Ezequiel 18:23, e assumir que sabemos o significado preciso, sem deixar outras escrituras como 1 Samuel 2:25 terem algo a dizer. O resultado de colocar as duas passagens juntas é que, em um sentido, Deus pode desejar a morte do ímpio e em outro sentido, Ele não pode.

Outra ilustração de Deus escolhendo não usar seu direito de restringir o mal é encontrada em Romanos 1:24-28. Três vezes Paulo diz que Deus entregou as pessoas (paredoken) para afundarem ainda mais em corrupção. Versículo 24: "Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à impureza, à desonra de seus corpos entre si." Versículo 26: "Deus os entregou a paixões infames." Versículo 28: "E, como eles se não importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convém". Deus tem o direito e o poder para restringir esse mal à semelhança do que fez por Abimeleque. Mas Ele não quis fazer isso. Pelo contrário, a Sua vontade neste caso foi de punir, e parte do castigo de Deus sobre o mal é muitas vezes Ele querer o aumento do mal. Mas isso significa que Deus escolhe que um comportamento venha a acontecer, sendo que Ele ordenou que não aconteça. O fato de que a vontade de Deus é punitiva não muda isso. E o fato dela ser justificadamente punitiva é um dos pontos deste capítulo. Há outros exemplos que poderíamos dar, mas passemos para uma linha diferente de evidências.

Será que Deus se Deleita com o Castigo dos Ímpios?

Nós acabamos de ver que Deus "quis" matar os filhos de Eli, e que a palavra para esse desejo é a mesma usada em Ezequiel 18:23 quando Deus diz não “ter prazer” na morte do ímpio. Outra ilustração desse complexo desejo encontra-se em Deuteronômio 28:63. Moisés é advertido da vinda do julgamento sobre o Israel impenitente. O que ele diz é muito diferente (não contraditório, como irei argumentar) de Ezequiel 18:23. "Assim como o Senhor se alegrava em vós outros, em fazer-vos bem e multiplicar-vos, da mesma sorte o Senhor se alegrará em vos fazer perecer e vos destruir."

Aqui uma palavra ainda mais forte para a alegria é usado (yasis) quando diz que Deus "se alegrará em vos fazer perecer e vos destruir." Somos confrontados com o incontestável fato bíblico de que que em certo sentido, Deus não se deleita na morte do ímpio (Ezequiel 18), e em outro sentido, Ele se deleita. (Deuteronômio 28:63; 2 Samuel 2:25).

Quão Extensa é a Soberana Vontade de Deus?

Por trás desta relação complexa de duas vontades em Deus está a premissa fundamental da Bíblia de que Deus é certamente soberano de uma maneira que o torna governador de todas as ações. R.T. Forster e V.P. Marston tentam superar a tensão entre a vontade de Deus de decreto e a vontade de Deus de comando, afirmando que não existe tal coisa como a soberana vontade de Deus de decreto: "Nada na Bíblia sugere que há algum tipo de vontade ou plano de Deus que seja inviolável". Esta é uma afirmação notável. Sem pretender ser exaustivo, será honesto tocar brevemente em algumas Escrituras que, de fato, "sugere que há algum tipo de vontade ou plano de Deus que seja inviolável".

Há passagens que atribuem a Deus o controle final sobre todas as calamidades e catástrofes provocadas pelo homem ou pela natureza. Amós 3:6: "Sucederá algum mal à cidade, sem que o SENHOR o tenha feito?” Isaías 45:7,"Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas." Lamentações 3:37-38: "Quem é aquele que diz, e assim acontece, quando o Senhor o não mande? Acaso, não procede do Altíssimo tanto o mal como o bem? " Notável nestes textos é que as calamidades em vista envolvem hostilidades humanas e crueldades que Deus desaprova, apesar dEle querer que elas aconteçam.

O apóstolo Pedro escreveu a respeito do envolvimento de Deus no sofrimento do seu povo nas mãos de seus antagonistas. Em sua primeira carta, ele falou da “vontade de Deus” em dois sentidos. Era algo a ser perseguido e vivido por um lado. "Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos" (1 Pedro 2:15). "Para que, no tempo que vos resta na carne, já não vivais de acordo com as paixões dos homens, mas segundo a vontade de Deus." (4:2). Por outro lado, a vontade de Deus não era a sua instrução moral, mas o estado de coisas que ele soberanamente faz acontecer. "Porque, se for da vontade de Deus, é melhor que sofrais por praticardes o que é bom do que praticando o mal." (3:17). "Por isso, também os que sofrem segundo a vontade de Deus encomendem a sua alma ao fiel Criador, na prática do bem." (4:19). E neste contexto, o sofrimento que Pedro tem em mente é o sofrimento que vem de pessoas hostis e, portanto, não pode ocorrer sem pecado.

De fato, os santos do Novo Testamento pareciam viver à luz calma de uma global soberania de Deus sobre todos os detalhes de sua vida e ministério. Paulo expressou-se assim no que diz respeito a seus planos de viagem. Ao despedir-se dos santos em Éfeso, ele disse: "Se Deus quiser, voltarei para vós outros" (Atos 18:21). Aos Coríntios, escreveu: "Em breve, irei visitar-vos, se o Senhor quiser" (1 Coríntios 4:19). E, novamente, "Eu não quero, agora, ver-vos apenas de passagem, pois espero permanecer convosco algum tempo, se o Senhor o permitir" (1 Cor 16:7).

O escritor aos Hebreus diz que sua intenção é deixar as coisas elementares para trás e nos levar para a maturidade. Mas então ele faz uma pausa e acrescenta: "E isso faremos, se Deus permitir" (6:3). Isso é notável, pois é difícil imaginar que alguém pensa que Deus pode não permitir uma coisa dessas a menos que tenha uma visão extremamente alta das prerrogativas da soberania de Deus.

Tiago adverte contra o orgulho da presunção em falar dos planos mais simples da vida sem uma devida submissão à soberania global de Deus se a agenda do dia pode ser interrompida pela decisão de Deus tirar a vida que Ele deu. "Em vez de dizer: Amanhã faremos isto ou aquilo... devíeis dizer:Se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo."(Tiago 4:15). Assim, os santos em Cesaréia, quando não puderam dissuadir Paulo de correr o risco de ir a Jerusalém "conformados, dissemos: 'Faça-se a vontade do Senhor!'"(Atos 21:14). Deus decidiria se Paulo seria morto ou não, exatamente como disse Tiago.

Este sentido de viver nas mãos de Deus, com Ele regulando até os detalhes da vida, não era novidade para os primeiros cristãos. Eles já sabiam disso pela história completa de Israel, mas especialmente da sua literatura sapiencial: "O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do Senhor" (Provérbios 16:1). "O coração do homem traça o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos." (Provérbios 16:9). "Muitos propósitos há no coração do homem, mas o desígnio do Senhor permanecerá." (Provérbios 19:21). "A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda decisão." (Provérbios 16:33). "Eu sei, ó Senhor, que não cabe ao homem determinar o seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos." (Jeremias 10:23). Jesus não tinha rivalidade com esse sentido de viver nas mãos de Deus. Pelo contrário, Ele intensificou a idéia com palavras como essas em Mateus 10:29: "Não se vendem dois pardais por uma moedinha? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai."

Essa confiança de que os detalhes da vida estavam no controle de Deus, todos os dias, estava enraizada em numerosas expressões proféticas do propósito soberano de Deus que não pode ser parado nem frustrado: "Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade”(Isaías 46:9-10, cf. 43:13). "Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes? " (Daniel 4:35). "Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado." (Jó 42:2)."Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado.” (Jó 42:2) “Nosso Deus está nos céus, ele faz o que lhe apraz" (Salmo 115:3).

Uma das implicações mais preciosas dessa inviolável confiança na vontade soberana de Deus é que ela fornece a fundação da esperança do "novo pacto" para a santidade, sem a qual não veremos o Senhor (Hebreus 12:14). No antigo pacto a lei foi escrita em pedra e trouxe a morte quando se reuniu com a resistência do coração não renovado. Mas a promessa da nova aliança é que Deus não deixará os seus propósitos por um povo santo naufragar sobre a fraqueza da vontade humana. Ao contrário, promete fazer o que precisa ser feito para fazer de nós o que devemos ser: "O Senhor, teu Deus, circuncidará o teu coração e o coração de tua descendência, para amares o Senhor, teu Deus, de todo o coração e de toda a tua alma, para que vivas.” (Deuteronômio 30:6). "Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis." (Ezequiel 36:27). “Farei com eles aliança eterna, segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim. " (Jeremias 32:40). "Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” (Filipenses 2:12-13).

Tendo em vista todos esses textos, sou incapaz de entender o que Forster e Marston podem querer dizer com: "Nada na Bíblia sugere que há algum tipo de vontade ou plano de Deus que seja inviolável" (veja nota 26). Também não posso entender como Fritz Guy pode dizer que a vontade de Deus é "desejo e intenção e não uma soberana e efetiva vontade" (ver nota 12). Pelo contrário, as Escrituras nos levam de novo e de novo a afirmar que a vontade de Deus é, por vezes, tratada como uma expressão de seus padrões morais para o comportamento humano e às vezes como uma expressão de sua vontade soberana até mesmo sobre os atos que sejam contrários ao seu padrão.

Isto significa que a distinção entre termos como "vontade de decreto" e "vontade de comando" ou "vontade soberana" e "vontade moral" não é uma distinção artificial demandada pela teologia calvinista. Os termos são um esforço para descrever a completa revelação bíblica. Elas são um esforço para dizer "sim" a toda a Bíblia e não silenciar nada dela. Elas são uma forma de dizer "sim" à vontade salvífica universal de 1 Timóteo 2:4 e "sim" para a eleição individual e incondicional de Romanos 9:6-23.

Isso faz sentido?

Eu passo agora à tarefa de refletir sobre como essas duas vontades de Deus se encaixam e fazem sentido - na medida em que esta finita e falível criatura pode responder a esse desafio.

A primeira coisa a afirmar, tendo em vista todos estes textos é que Deus não peca: "Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória". (Isaías 6:3). “Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta." (Tiago 1:13). Ao ordenar todas as coisas, inclusive atos pecaminosos, Deus não peca. Pois, como Jonathan Edwards diz: "Não implica nenhuma contradição supor que um ato pode ser um ato mal, e ainda assim que seja uma coisa boa que tal ato venha a acontecer... Como, por exemplo, pode ser uma coisa má crucificar a Cristo, mas ainda assim ter sido uma coisa boa que a crucificação de Cristo tenha acontecido". Em outras palavras, as Escrituras nos levam à percepção de que Deus pode querer que um ato pecaminoso aconteça sem o querer como um ato de pecado em si mesmo.

Edwards aponta que os arminianos, me parece, deveriam chegar a uma conclusão similar.

"Todos devem reconhecer que Deus não quer, por vezes, impedir a violação dos seus próprios mandamentos, porque Ele, de fato, não os impede... Mas você dirá que a vontade de Deus permite o pecado, de forma que Ele quer que a criatura seja deixada à sua liberdade; e se Ele impedi-lo, Ele irá oferecer violência à natureza da sua própria criatura. Eu respondo que isso vem, no entanto, a ser a mesma coisa que eu disse. Você diz que Deus absolutamente não quer o pecado, mas ao invés de alterar a lei da natureza e a natureza dos agentes livres, Ele quer as coisas como são. Ele quer o que é contrário à excelência em alguns elementos, por causa de uma mais geral excelência e ordem. Dessa forma, o esquema dos arminianos não resolve a questão.”

Isso me parece correto, e pode ser ilustrado novamente ao refletirmos diretamente em 1 Timóteo 2:4, onde Paulo diz que Deus quer que todas as pessoas sejam salvas. O que nós estamos dizendo do fato de que Deus deseja algumas coisas que na verdade não chegam a acontecer. Tanto quanto eu possa ver, existem aqui duas possibilidades. Uma delas é que há um poder no universo maior do que o de Deus, o qual o frusta por anular o que Ele quer. Nem os calvinistas nem os arminianos afirmam isso.

A outra possibilidade é que Deus não quer salvar a todos, apesar de estar disposto a salvar todos, porque há outra coisa que Ele queira mais, a qual seria perdida se Ele exercesse seu poder soberano para salvar a todos. Esta é a solução que eu, como calvinista, afirmo juntamente com os arminianos. Em outras palavras, tanto os calvinistas quanto os arminianos afirmam duas vontades em Deus quando refletem profundamente sobre 1 Timóteo 2:4. Ambos podem dizer que Deus quer que todos sejam salvos. Mas quando consultados sobre por que todos não são salvos, tanto os calvinistas quanto os arminianos respondem que Deus está empenhado em algo ainda mais valioso do que salvar a todos.

A diferença entre os calvinistas e os arminianos não reside em se existem duas vontades em Deus, mas no que eles dizem ser este compromisso maior. O que Deus quer mais do que salvar a todos? A resposta dada pelos arminianos é que a autodeterminação humana e a possibilidade resultante de um relacionamento de amor com Deus são mais valiosas do que salvar todas as pessoas pela graça soberana e eficaz. A resposta dada pelos calvinistas é que mais valiosa é a manifestação de toda a extensão da glória de Deus em ira e misericórdia (Romanos 9:22-23) e a humilhação do homem de forma que ele possa desfrutar em dar a Deus todo o crédito pela sua salvação (1 Coríntios 1:29).

É absolutamente crucial entender isso, porque implica que 1 Timóteo 2:4 não resolve a importante questão do maior compromisso de Deus, o qual o restringe de salvar a todos. Não há menção aqui de livre arbítrio. Também não há menção da graça soberana, preveniente e eficaz. Se tudo o que nós tivéssemos fosse este texto, nós só poderíamos supor o que restringe Deus de salvar a todos. Quando o livre-arbítrio é encontrado neste versículo é uma suposição filosófica e metafísica e não uma conclusão exegética. A suposição é que se Deus quer, em um sentido, que todos sejam salvos, então ele não pode, em outro sentido, querer que só alguns sejam salvos. Essa hipótese não está no texto, nem é exigida pela lógica, nem é ensinada no resto das Escrituras. Portanto, 1 Timóteo 2:4 não resolve a questão, mas a cria. Tanto os arminianos quanto os calvinistas devem procurar outras passagens para responder se o dom da auto-determinação humana ou a glória da soberania divina é a realidade que restringe a vontade de Deus de salvar todas as pessoas.

Os calvinistas que eu admiro não clamam ter soluções simples e fáceis para as complexas tensões bíblicas. Quando seu texto é difícil, isso se deve ao fato das Escrituras serem difíceis (como o apóstolo Pedro reconheceu que, em parte, elas são, 2 Pedro 3:16). Estes calvinistas estão lutando para ser fiéis a diversas (mas não contraditórias) Escrituras. Tanto os calvinistas quanto os arminianos, por vezes, sentem que a ridicularização dirigida contra suas exposições complexas são, na verdade, uma ridicularização feita contra contra a complexidade das Escrituras.

Eu acho que os esforços de Stephen Charnock (1628-1680), um capelão em Henry Cromwell e não-conformista pastor em Londres, são equilibrados e úteis na sustentação unida das diversas Escrituras sobre a vontades de Deus.

Deus não quer [o pecado] diretamente, e por uma vontade eficaz. Ele não quer isso diretamente, porque Ele o proibiu em sua lei, a qual é uma revelação de sua vontade; de modo que se Ele diretamente quiser o pecado, e diretamente o proibir, Ele iria querer bem e mal da mesma maneira, e haveria contradições na vontade de Deus: querer o pecado absolutamente, é fazer com que ele ocorra (Salmo 115:3): "Deus tudo faz como lhe agrada". Deus não pode absolutamente querer isso, porque Ele não pode fazer com que isso ocorra. Ele deseja o bem por um decreto positivo, porque decretou que isto se efetivasse. Ele deseja o mal por um decreto privado, porque Ele decretou não dar a graça que certamente o impediria. Se Deus não quer o pecado simplesmente, por não o aprovar, mas Ele o quer, a fim de que a sabedoria traga o bem à tona a partir dele, Ele não o quer por si mesmo, mas para o evento.

Da mesma forma Jonathan Edwards, escrevendo cerca de 80 anos mais tarde, chega a conclusões semelhantes com uma terminologia um pouco diferente.

“Quando é feita uma distinção entre a vontade revelada de Deus e sua vontade secreta, ou sua vontade de comando e de decreto, "vontade" é certamente na distinção entre dois sentidos. Sua vontade de decreto, não é a sua vontade no mesmo sentido que sua vontade de comando. Portanto, não é difícil, absolutamente, supor que uma possa ser diferente da outra: sua vontade em ambos os sentidos é a sua inclinação. Mas quando dizemos que quer a virtude, ou que ama a virtude, ou a felicidade de Sua criatura; assim é intencionado que a virtude, ou a felicidade da criatura, absolutamente e simplesmente consideradas, são agradáveis à inclinação de sua natureza.”

“Sua vontade de decreto é, a sua inclinação para uma coisa, não para com aquela coisa absolutamente e simplesmente, mas com respeito à universalidade das coisas, que foram, são ou serão. Então, Deus, embora odeie uma coisa como ela simplesmente é, pode se inclinar a ela com referência à universalidade das coisas. Embora ele odeie o pecado, em si, ainda assim Ele pode desejar permití-lo, para a maior promoção da santidade nesta universalidade, incluindo todas as coisas e em todos os momentos. Assim, embora Ele não tenha inclinação para a miséria de uma criatura, considerada de forma absoluta, ainda assim Ele pode desejá-la, para a maior promoção da felicidade nesta universalidade.

Em minhas próprias palavras, Edwards diz que a complexidade infinita da mente divina é tal, que Deus tem a capacidade de olhar o mundo através de duas lentes. Ele pode olhar através de uma lente estreita, ou através de uma lente de grande ângulo. Quando Deus olha para um evento doloroso ou perverso através da sua lente estreita, Ele vê a tragédia ou o pecado pelo que ele é em si e Ele fica furioso e triste. "Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o Senhor" (Ezequiel 18:32). Mas quando Deus olha para um evento doloroso ou perverso através da sua lente de grande ângulo, Ele vê a tragédia ou o pecado em relação a tudo que os antecederam e em relação a tudo que resultará deles. Ele os vê em todas as conexões e efeitos que formam um padrão ou mosaico de alongamento desde a eternidade. Neste mosaico, com todas as suas peças (boas e más) Ele se deleita (Salmo 115:3).

A vida emocional de Deus é infinitamente complexa e além da nossa capacidade de compreendê-la plenamente. Por exemplo, quem pode compreender que o Senhor ouve em um momento do tempo as orações de dez milhões de cristãos ao redor do mundo, e se solidariza com cada um pessoalmente e individualmente, como um Pai cuidadoso (como Hebreus 4:15 diz que ele irá), muito embora dentre os dez milhões de orações algumas são de coração partido e algumas são cheias de alegria? Como Deus pode chorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram quando ambos estão próximos a ele, ao mesmo tempo?

Ou quem pode compreender que Deus está irado com o pecado do mundo todos os dias (Salmo 7:11), e ainda assim a cada dia, a cada momento, Ele está se alegrando com tremenda alegria, porque em algum lugar do mundo um pecador se arrependeu (Lucas 15: 7,10,23)? Quem pode compreender que Deus continuamente arde com ira fervente com a rebelião dos ímpios, sofre com o discurso profano do seu povo (Efésios 4:29-30), e ainda tem prazer neles diariamente (Salmo 149.4), e incessantemente se agrada sobre os pródigos arrependidos que voltam para casa?

Quem de nós poderia dizer essa complexidade de emoções não é possível para Deus? Tudo o que nós temos para nos guiar por aqui é o que Ele escolheu nos dizer na Bíblia. E o que Ele nos disse é que há um sentido em que Ele não sente prazer no julgamento dos ímpios, e há um sentido em que Ele sente.

Portanto, não devemos cambalear sobre o fato de que Deus tem e não tem prazer na morte do ímpio. Quando Moisés adverte Israel de que o Senhor teria prazer em trazer ruína sobre eles e destruí-los se não se arrependessem (Deuteronômio 28:63), Ele quer dizer que aqueles que se rebelaram contra o Senhor e se moveram para além do arrependimento não serão capazes de se regozijar de ter feito miserável o Todo-Poderoso. Deus não é derrotado nos triunfos de seu julgamento justo. Bem ao contrário. Moisés diz que quando são julgados eles involuntariamente providenciam uma ocasião para Deus se alegrar na manifestação da sua justiça, do seu poder e do valor infinito da sua glória (Romanos 9:22-23).

Quando Deus tomou conselho consigo mesmo se deveria salvar todas as pessoas, Ele consultou não só a verdade do que viu quando olhou através da lente estreita, mas também a verdade maior que viu quando todas as coisas são vistas através da lente de grande ângulo de sua onisciente sabedoria. Se, como dizem os calvinistas, Deus julgou sábio e bom eleger incondicionalmente alguns para a salvação e outros não, pode-se legitimamente perguntar se a oferta de salvação para todos é genuína. É feita com o coração? Ela vem de compaixão real? É a vontade que ninguém pereça uma bone fide vontade de amor?

A maneira que eu responderia a isso é explicada por Robert L. Dabney em um ensaio escrito mais de cem anos atrás. Seu tratamento é bastante detalhado e responde muitas objeções que vão além dos limites deste capítulo. Eu vou simplesmente dar a essência da sua solução que me parece estar no caminho certo, embora ele, assim como eu, admitiria que nós não "fornecemos uma explicação exaustiva do mistério da vontade divina."

Dabney usa uma analogia da vida de George Washington tirada do livro Vida de Washington do Chefe de Justiça Marshall. Um certo Major André tinha comprometido a segurança da jovem nação através de "imprudentes e infelizes" atos de traição. Marshall diz da sentença de morte, assinada por Washington: "Talvez em nenhuma ocasião de sua vida o comandante-chefe obedeceu com mais relutância os severos mandatos do dever e da política." Dabney observa que a compaixão de Washington por André foi “real e profunda”. Ele também tinha o "pleno poder para matar ou salvar sua vida." Por que então ele assinou a sentença de morte? Dabney explica, "a vontade de Washington de assinar a sentença de morte de André não surgiu do fato de que a sua compaixão era leve ou fingida, mas do fato de que era racionalmente contraposta por uma complexidade de juízos superiores... De sabedoria, dever, patriotismo e moral indignação [a lente de grande ângulo] "

Dabney imagina um defensor de André, ouvindo Washington dizer: "Eu faço isso com a mais profunda relutância e piedade." Em seguida, o defensor diz: "Como você é supremo neste assunto, e tem a completa habilidade física para derrubar a caneta, saberemos por sua assinatura nessa sentença que sua piedade é hipócrita." Dabney responde a isso dizendo: "A petulância desse ataque teria sido igual a sua loucura. A piedade era real, mas foi restringida por elementos de superior motivo. Washington tinha o poder oficial e corporal para libertar o criminoso, mas ele não tinha as sanções de sua própria sabedoria e justiça." O ponto correspondente no caso da eleição divina é que "a ausência da vontade de Deus em salvar não implica necessariamente a ausência de compaixão." Deus tem "uma verdadeira compaixão, que é, no entanto, restringida, no caso dos... não-eleitos, por razões consistentes e santas, de tomar a forma de uma vontade de regenerar." A infinita sabedoria de Deus regula toda a sua vontade e guia e harmoniza (não suprime) todos os seus princípios ativos. "

Em outras palavras, Deus tem uma compaixão real e profunda pelos pecadores que perecem. Jeremias ressalta esta realidade no coração de Deus. Em Lamentações 3:32-33 ele fala do juízo que Deus trouxe sobre Jerusalém: "pois, ainda que entristeça a alguém, usará de compaixão segundo a grandeza das suas misericórdias; porque não aflige, nem entristece de bom grado os filhos dos homens.". O termo "de bom grado" traduz uma palavra hebraica composta (milibo), que significa literalmente "de seu coração" (cf. 1 Reis 12:33). Parece que este é o jeito de Jeremias dizer que Deus quer a aflição que causou, mas Ele não quer isso da mesma maneira que quer a compaixão. A aflição não veio "de seu coração." Jeremias estava tentando, como nós estamos, chegar aos termos que de uma maneira o soberano Deus quer duas coisas diferentes, aflição e compaixão.

As expressões divinas de piedade e suas súplicas tem o coração nelas. Há uma genuína inclinação do coração de Deus para poupar aqueles que cometeram traição contra seu reino. Mas sua motivação é complexa, e nem todo sincero elemento nela surge ao nível da efetiva escolha. Em seu grande e misterioso coração existem tipos de anseios e desejos que são reais - eles nos dizem algo de verdadeiro sobre seu caráter. No entanto, nem todos estes anseios governam as ações de Deus. Ele é regido pela profundidade da sua sabedoria expressa através de um plano que nenhuma ordinária deliberação humana comum jamais conceberia (Romanos 11:33-36; 1 Coríntios 2:9). Existem santas e justas razões pelas quais as afeições do coração de Deus tem a natureza, a intensidade e a proporção que têm.

Dabney está ciente de que vários tipos de acusações podem ser levantadas contra a analogia de George Washington quando aplicada a Deus. Ele admite que "não pode haver perfeita analogia entre as ações de uma finita e de uma infinita inteligência e vontade." Mas eu creio que ele tem razão quando diz que as objeções não derrubam a verdade essencial que pode haver, em um coração nobre e grande (até mesmo em um coração divino), a compaixão sincera para um criminoso que não é, no entanto, posto em liberdade.

Por isso eu afirmo com João 3:16 e 1 Timóteo 2:4 que Deus ama o mundo, com uma profunda compaixão que deseja a salvação de todos os homens. No entanto, também afirmo que Deus escolheu antes da fundação do mundo quem vai salvar do pecado. Uma vez que nem todas as pessoas são salvas, devemos escolher se queremos acreditar (com os arminianos) que a vontade de Deus para salvar todas as pessoas é restringida por seu compromisso com a autodeterminação humana, ou se acreditamos (com os calvinistas), que a vontade de Deus para salvar todos os povos é restringida pelo seu compromisso com a glorificação de sua graça soberana (Efésios 1:6,12,14; Romanos 9:22-23).

Esta decisão não deve ser feita com base em pressupostos metafísicos sobre o que pensamos que responsabilidade humana requer. Deve ser feita com base no que as Escrituras ensinam. Não encontramos na Bíblia que os seres humanos têm o poder absoluto de autodeterminação. Tanto quanto eu posso dizer isso é uma inferência filosófica baseada em pressupostos metafísicos. Por outro lado, este livro pretende mostrar que a soberania da graça de Deus na salvação é ensinada nas Escrituras.

Minha contribuição foi simplesmente demonstrar que a vontade de Deus para todos os homens serem salvos não está em contradição com a soberania da graça de Deus na eleição. Ou seja, a minha resposta à pergunta acima sobre o que restringe a vontade de Deus para salvar todas as pessoas é: o seu compromisso supremo em defender e expor toda a extensão da sua glória, através da demonstração soberana da sua ira e da sua misericórdia para o gozo dos seus eleitos e dos crentes de toda tribo, língua e nação.

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