A autoridade e natureza do dom da profecia

14 Então, levantou-se Pedro, com os Onze; e, erguendo a voz, adveritiu-os nestes termos: “Varões judeus e todos os habitantes de Jerusalém, tomai conhecimento disto e atentai nas minhas palavras. 15 Estes homens não estão embriagados como vindes pensando, sendo esta a Terceira hora do dia. 16 Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: 17 ‘E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; 18 até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão. 19 Mostrarei prodígios em cima no céu e sinais embaixo na terra: sangue, fogo e vapor de fumaça. 20 O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e glorioso Dia do Senhor. 21 E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo’”.

Na última semana, tentei mostrar que 1 Coríntios 13,8-12 ensina que o dom da profecia passará quando Jesus voltar — o modo como a imagem obscura do espelho dará lugar a imagem da face real. E argumento que, por conseguinte, o dom da profecia é ainda válido na igreja hoje. Eu prometi que hoje formularia as questões: o que é o dom da profecia e como ele deve ser exercido?

A finalidade e suficiência da Escritura

Permita-me começar por afirmar a finalidade e suficiência da Escritura, os 66 livros da Bíblia. Nada digo sobre as profecias de hoje que signifique que elas têm autoridade sobre nossas vidas como a Escritura tem. Sejam quais forem as profecias anunciadas hoje, elas nada acrescentam à Escritura. Elas são testadas pela Escritura. A Escritura está encerrada e é definitiva; ela é um fundamento, não em processo de formação.

A melhor forma de perceber isso é compreender como o ensino dos apóstolos foi a autoridade final na igreja primitiva e como outras profecias não tiveram autoridade definitiva. Por exemplo, Paulo declara em 1 Coríntios 14,37-38: “Se alguém se considera profeta ou espiritual, reconheça ser mandamento do Senhor o que vos escrevo. E, se alguém o ignorar, será ignorado”. A implicação é clara: o ensino dos apóstolos tem autoridade final. As alegações para a profecia na igreja, de vez em quando, não têm essa autoridade.

Você pode compreender isso em 2 Tessalonicenses 2,1-3. Paulo declara que, mesmo se alguém lhe revelar algo sobre a segunda vinda através de um “espírito”, não creia nele se a revelação diferir do seu ensino: “Irmãos, no que diz respeito à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião com ele, nós vos exortamos a que não vos demovais da vossa mente, com facilidade, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como se procedesse de nós, supondo tenha chegado o Dia do Senhor. Ninguém, de nenhum modo, engane-vos, porque isso não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia...”. Em outras palavras, as profecias precisam ser testadas pela palavra do apóstolo.

Agora, o conceito é este: hoje, o Novo Testamento se situa onde os apóstolos se situaram. A autoridade deles é exercida hoje por meio de seus escritos e os escritos de seus companheiros mais próximos como Lucas, Marcos e Tiago (o irmão do Senhor). Assim, da mesma forma, Paulo fez do ensino apostólico a autoridade definitiva naqueles tempos; desse modo, fazemos do ensino apostólico a autoridade definitiva em nossa época. Significa que o Novo Testamento é a nossa autoridade. E, uma vez que o Novo Testamento endossa o Antigo Testamento como palavra inspirada de Deus, consideramos toda a Bíblia nossa regra e vara de medir de todos os ensinos e todas as profecias sobre o que devemos crer e como devemos viver.

O que aconteceu no Pentecostes

Agora, vamos nos voltar para Atos 2,16 e versículos seguintes para vermos o que podemos aprender a respeito do dom da profecia no Novo Testamento. A situação: é o dia de Pentecostes, 50 dias após a ressurreição de Jesus. Há 120 cristãos entre homens e mulheres esperando em Jerusalém para serem “revestidos com o poder do alto” (Lucas 24,49). De acordo com Atos 2,2, o Espírito Santo veio como o som de um vento impetuoso. No versículo 4, Lucas diz: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas”. O versículo 11 é mais específico sobre o que eles diziam. Alguns dos estrangeiros os ouviram dizer “em suas próprias línguas as grandezas de Deus”. Note o conteúdo das palavras deles muito cuidadosamente. Será bastante relevante para entender a natureza do dom da profecia.

O cumprimento da profecia de Joel

No versículo 16, Pedro explica o que está acontecendo. Ele diz que foi isso o que falou o profeta Joel. O acontecimento é o princípio do cumprimento de Joel 2,28. Então, ele cita Joel nos versículos 17 e 18: “E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão”.

Joel havia dito que, nos últimos dias, haveria um magnífico derramamento do Espírito em escala mundial (“toda carne”) e a marca desse derramamento seria difusão do ato de profetizar por homens, mulheres, velhos e jovens, pessoas das classe baixa e da classe alta. Joel declara que isso aconteceria nos “últimos dias”. Quando seria isso? Pedro afirma que isso estava ocorrendo então. “O que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel”. Mas, se os últimos dias estavam começando então, onde essa profecia de Joel nos situa?

Os últimos dias

Ela nos situa nos últimos dias. Visto que Jesus veio, estamos vivendo os últimos dias. Hebreus 1,1-2 declara: “Havendo Deus, outrora falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho [...]”. Uma vez que o Filho veio, vivemos nos “últimos dias”.

Assim, isso confirma que vimos na última semana sobre a profecia ser algo que deveríamos esperar hoje. Homens e mulheres, jovens e idosos, servos e servas profetizarão nos últimos dias (nossos dias), e isso será um fenômeno de escala mundial porque, como o versículo 27 diz, Deus derramará de seu Espírito sobre TODA A CARNE — não somente judeus. O sermão de Pedro termina em Atos 2,39: “Pois para vós outros é a promessa [do Espírito no versículo 38], para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe, isto é para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar”. Isso nos inclui como gentios que são chamados por Deus. Nem todos os que se arrependem e creem, profetizarão (1 Coríntios 12,29). Entretanto, todos os que se arrependem e creem, receberão o Espírito Santo (v. 38). E uma manifestação do Espírito nos últimos dias será um dom de profecia disseminado maravilhosamente (vs. 17, 18): “Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão”.

A inspiração do Espírito não é autoridade divina intrínseca

Agora, faça a si mesmo esta pergunta: Joel, Pedro e Lucas pensaram que todos os homens e mulheres, velhos e jovens, servos e servas se tornariam profetas no mesmo sentido que Moisés, Isaías e Jeremias foram profetas, isto é, pessoas que falaram com inspiração verbal e verdadeira autoridade de Deus e escreveram a Escritura infalível? A profecia de Atos 2,17 é esse tipo de profecia? Ou há uma diferença?

Creio que há uma diferença. Não penso que o dom da profecia hoje tem a autoridade dos profetas do Antigo Testamento ou a autoridade de Jesus e dos apóstolos. Ou, para expressar esse fato mais dogmaticamente, esse tipo de profecia inspirada e sustentada pelo Espírito não transmite autoridade divina intrínseca.

Uma das razões que esse tipo de profecia é tão difícil de tratar hoje é que a maioria de nós não tem categorias em nosso pensamento para uma declaração inspirada pelo Espírito que não tenha a autoridade divina intrínseca. Soa como uma contradição. Temos dificuldade com uma espécie de fala que é inspirada e sustentada pelo Espírito Santo e, contudo, é falível. Mas vou tentar mostrar nesta manhã e nesta noite que esse é o dom da profecia no Novo Testamento e hoje. É uma declaração inspirada pelo Espírito e sustentada pelo Espírito que não transmite autoridade divina intrínseca e pode estar misturada com erro.

Agora, se isso faz o dom da profecia parecer insignificante e inútil, considere a analogia do dom do ensino.

A analogia do dom do ensino

Você não diria que, quando o dom espiritual do ensino é exercido, o ensino é inspirado e sustentado pelo Espírito e é arraigado na divina e infalível revelação, a Bíblia? O dom do ensino é o ato inspirado e sustentado pelo Espírito de explicar a verdade bíblica para a edificação da igreja. E todos nós diríamos que o ensino é tremendamente valioso na vida da igreja. Todavia, alguns de nós diríamos que a fala do mestre, quando exerce o dom de ensinar, é infalível? Não. Diríamos que ele tem autoridade divina? Apenas em um sentido essencialmente secundário diríamos isto. Não em si mesmo, não intrinsecamente, mas em sua fonte, a Bíblia.

Por que um dom, inspirado e sustentado pelo Espírito e arraigado na revelação infalível (a Bíblia), é, contudo, falível, misturado à imperfeição e tem autoridade apenas secundária e derivativa? A resposta é: a percepção de um mestre da verdade bíblica é falível; sua análise da verdade bíblica é falível; sua explanação da verdade bíblica é falível. Não há garantia de que a ligação entre a Bíblia infalível e a igreja será uma ligação infalível. O dom do ensino não garante ensino infalível.

E, contudo, embora o dom do ensino seja falível e embora careça de autoridade divina intrínseca, sabemos que ele é de imenso valor para a igreja. Todos nós somos edificados e formados por mestres talentosos. Deus está nisso. Ele usa o ensino. O ensino é um dom espiritual.

Agora, compare o dom do ensino ao dom da profecia. Ele é inspirado e sustentado pelo Espírito e baseado na revelação de Deus. Deus revela algo à mente do profeta (de alguma forma, além do sentido ordinário de percepção) e, visto que Deus jamais comete um erro, sabemos que sua revelação é verdadeira. Ela não tem erro. Mas o dom da profecia não garante a transmissão infalível da revelação. O profeta pode perceber a revelação imperfeitamente, pode entendê-la imperfeitamente e pode entregá-la imperfeitamente. É por essa razão que Paulo vê obscuramente por um espelho (1 Coríntios 13,12). O dom da profecia resulta na profecia falível assim como o dom do ensino resulta em um ensino falível. Desse modo, eu perguntaria: Se o ensino pode ser bom para a edificação da igreja, a profecia não poderia ser boa para edificar também, precisamente, como Paulo diz em 1 Coríntios 14,3, 12, 26 — embora os dois sejam falíveis, misturados à imperfeição humana e tenham a necessidade de serem testados?

A criação de uma nova categoria em nosso pensamento

O conceito que tenho dito é este: precisamos criar uma categoria em nosso pensamento para um tipo de fala inspirada e sustentada pelo Espírito, arraigada na revelação e, entretanto, em necessidade de teste e exame minucioso. Precisamos de outra categoria de profeta além do profeta, por um lado, que falou com infalível inspiração verbal (os profetas autores da Bíblia, Jesus e os apóstolos) e o falso profeta, por outro lado, condenado em Deuteronômio 13,3; 18,20 (confira Jeremias 23,16). O ensino que encontramos na Bíblia sobre a profecia simplesmente não se esgota nessas duas categorias. Necessitamos de uma terceira categoria para o “dom espiritual da profecia” — inspiração do Espírito, sustentada pelo Espírito, arraigada na revelação, mas misturada à imperfeição e falibilidade e, por conseguinte, com a necessidade que seja examinada minuciosamente.

Digo exame minucioso porque, em 1 Tessalonicenses 5,19-22, é o que acontece. O profeta não é testado como verdadeiro ou falso. As profecias são inspecionadas para verificar se são boas ou perniciosas. “Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom; abstende-vos de toda forma de mal”. Não é uma situação em que se tem um profeta verdadeiro, infalível ou um profeta falso, atrevido. É uma situação em que certa profecia é boa e certa é má.

Paulo afirma que, se desprezarmos as profecias devido às suas imperfeições, apagamos o Espírito. Espero que você queira evitar isso com todo o seu coração. Como faremos? Não há muito o que dizer. Vou aprender hoje à noite, transmitir razões adicionais e implicações práticas. Que o próprio Senhor nos ensine até esta tarde.

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