As maravilhas de sua Palavra

Considerando a relação entre a oração e o estudo da Bíblia

Desvendai meus olhos, para que eu contemple as maravilhas de vossa lei.

Nossa necessidade desesperada da iluminação de Deus

Os três fatos que vimos nesse versículo na última semana são: 1) há maravilhas na Palavra de Deus; 2) ninguém pode vê-las exatamente como elas são sem a ajuda sobrenatural de Deus; 3) portanto, precisamos orar a Deus por iluminação sobrenatural quando lemos a Bíblia.

Assim, a ênfase na última semana foi na oração e nossa necessidade desesperada da iluminação sobrenatural para ver as realidades espirituais — ver a glória de Deus, sua perfeição e excelência. Você pode ver muitas realidades quando se aproxima da Palavra sem que Deus abra os olhos de seu coração. Você pode ver palavras e construções gramaticais. Pode ver conexões lógicas. Pode ver fatos históricos. Pode ver a intenção racional do autor. Pode ver algumas emoções humanas. Nenhum desses fatos requer que Deus abra seus olhos de uma forma especialmente espiritual.

Mas o que não se pode ver é a perfeição espiritual de Deus e de seu Filho e a obra deles no mundo. Não se pode ver que Deus é infinitamente desejável acima de todas as coisas. Uma pessoa cega não pode ver o sol, embora possa saber muitos fatos a respeito dele e passar em um teste de astronomia com alta pontuação mais que uma pessoa que possa vê-lo. Saber a respeito e saber pelo olhar não são as mesmas coisas. Saber que o mel é doce e prová-lo não são os mesmos fatos.

Permita-me ler novamente a descrição completa de Paulo de nossa condição aparte da iluminação especial e redentora de Deus. Em Efésios 4,17b, 18, Paulo menciona cinco características terríveis da condição humana que carecem da intervenção divina se precisarmos ver a realidade espiritual. Ele diz que os gentios (em outras palavras, o mundo ordinário dos homens dentre as nações, aparte da graça) andam “na vaidade dos seus próprios pensamentos”, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus pela da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração. Lendo em retrospecto, pode-se dizer que há em todos nós, à parte da graça poderosa de Deus, uma dureza de coração que leva à ignorância e, por sua vez, conduz à alienação de Deus que leva às trevas e conduz à vaidade do pensamento e da vida.

Desse modo, o fato da última semana foi: se há alguma esperança para vermos as maravilhas na Palavra de Deus, teremos que ter uma capacidade divina e sobrenatural concedida a nós por ele que não temos por natureza. E, portanto, precisamos orar por isto: “Desvendai meus olhos”. E se permanecêssemos vivos em Deus, reais, autênticos e intensos em nosso amor por ele, deveríamos estar desesperados para ter essa capacidade todo dia. Por conseguinte, ore. Leia o Salmo 119 e veja quantas vezes o salmista ora por ajuda divina para conhecer a Deus e seus propósitos.

Ver é tornar-se

Hoje tenho uma proposta diferente a fazer. Mas antes que eu a diga, permita-me ter certeza de que você perceba porque esta proposta é importante. É relevante ser transformado à semelhança de Jesus e isso acontece por vermos a perfeição, o valor e a excelência de Deus em seu Filho e suas palavras e propósitos. Em 2 Coríntios 3,18. Paulo enuncia: “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito”. Ver é tornar-se.

Essa é a única forma cristã de mudar o comportamento de modo a honrar a Deus. Mudamos porque vemos a perfeição superior, o valor e a excelência. Se você olha para a face de Cristo e então contempla as celebridades do esporte e do glamour e não se sente comovido pela perfeição superior, valor e excelência de Cristo, então você ainda é insensível, cego e fútil em seu pensamento. Você precisa clamar: “Desvendai meus olhos, para que eu contemple as maravilhas de vossa lei”. E sua vida demonstrará essa contemplação. Onde está seu tesouro — seu desejo, prazer, beleza — aí estará também seu coração — e suas noites e sábados e seu dinheiro. Somos transformados por vermos a glória de Deus na Palavra de Deus. Se Deus não é mais glorioso para você e mais motivador que o brilho e a glória do mundo, você não o viu. 3 João 11 declara: “Aquele que pratica o mal jamais viu a Deus” (Veja também 1 João 3,6).

Portanto, tudo isso é relevante porque toda vida verdadeiramente transformada que honra a Deus e tem valor espiritual procede do ato de ver a glória de Deus, não do ato de fazer listas de comportamentos religiosos e tentar imitá-los.

Deus revela a perfeição de Cristo pela Palavra

Hoje a verdade do texto é esta: Deus mostra a perfeição e a excelência de Cristo apenas para aqueles que contemplam sua Palavra. É por essa razão que a verdadeira mudança espiritual procede da leitura, meditação e memorização da Bíblia. Não é porque se aprende regras para serem obedecidas. É porque a Bíblia é o lugar onde o Senhor revela a perfeição e excelência de Cristo.

Permita-me ser incisivo sobre a relevância da Bíblia. Vamos supor que você ouviu a mensagem da última semana, de que precisamos ver a glória de Deus a fim de sermos transformados, mas não podemos ver devido ao nosso entorpecimento, dureza e cegueira e necessitamos, por conseguinte, orar a Deus para tornar nossos olhos vivos, sensíveis e abertos. E, admitindo que se conclua o seguinte: “Bem, então, preciso me devotar à oração e não ao estudo, leitura ou memorização da Bíblia porque a mera visão e raciocínio humanos não podem ver que é preciso ser visto”. Isso seria uma conclusão terrível no que se refere ao que disse desse texto.

A verdade é: Deus abre os olhos do cego para ver a glória dele em sua Palavra quando aquele procura pela Palavra. Supondo que vocês quisessem ver a glória do Grand Canyon, mas fossem cegos. E admitindo que Deus dissesse a vocês, clamem a mim e venham e orem a mim e eu lhes abrirei os olhos para verem a glória do Grand Canyon. Vocês iriam do Arizona à Flórida para orar? Ou usariam cada músculo e percepção que Deus lhes deu para ir ao Grand Canyon e fixarem seus olhos na direção que Deus prometeu. Meu raciocínio é este: ele não lhe mostrará a glória do Grand Canyon se você insistisse em viver nos pântanos, não importa o quanto você orasse.

Permita-me dizer de outro modo. Deus ordenou que a obra de seu Espírito de desvendar os olhos sempre seja unida com a obra de informar a mente sobre sua Palavra. O propósito de Deus é que vejamos a glória de seu Filho (e sejamos mudados). Por conseguinte, ele abre nossos olhos quando olhamos para o seu Filho — não para dinheiro ou vendas. A obra do Espírito e a obra da Palavra sempre estão juntas no propósito de Deus da verdadeira autorrevelação espiritual. A obra do Espírito é mostrar a glória, a perfeição e o valor que a mente vê na Palavra.

Não devemos cometer o erro de pensar que precisar do Espírito de Deus é alguma nova informação. Na Bíblia, temos já milhares de informações a respeito de Deus mais que nossa capacidade de entender e apreciar. Precisamos ver com os olhos de nossos corações! Qualquer acréscimo de informação pelo Espírito ao que podemos ver de Cristo na Palavra não faria de nós mais espirituais ou agradáveis a Deus.

Suponha que o Espírito lhe manifstou a nova revelação de que sua amiga estéril ficará grávida. Você diz a ela a notícia e, quando a gravidez acontece, vocês ficam alegres e entusiasmados com o milagre da profecia de gravidez. O que você ganhou espiritualmente? Nada. A menos que você se volte para a Palavra e veja — com os olhos do coração — a glória e a perfeição de Cristo retratados na Bíblia — Jesus de Nazaré, crucificado e ressuscitado para salvar pecadores e glorificar a Deus, que desse modo abençoa você. O entusiasmo religioso na presença de milagres é um fato natural e não é necessário que haja uma dimensão espiritual ou sobrenatural. Os dons do Espírito são preciosos, mas infinitamente mais importante é a iluminação da abertura dos olhos pelo Espírito Santo, de modo que vejamos a glória de Cristo na Palavra.

Não é de uma nova revelação que precisamos, mas de novos olhos para vermos o que está revelado para nós na Palavra de Deus. Abri meus olhos, para que eu contemple as maravilhas de vossa Palavra.

Não ore e fique à deriva

Permita-me extrair algumas implicações disto

A primeira implicação é que, quando você ora para que seus olhos vejam, não se pode deslocar sua mente para a neutralidade. Não pressuponha que o fato de a oração ser indispensável signifique que a reflexão focada na Palavra seja dispensável. Quando orar para ver a glória de Cristo, não fique à deriva, ou seja, negligente com sua mentalidade. Não espere somente, sem nada fazer. Isso é um erro enorme e procede da espiritualidade oriental, não da Bíblia. O que é especial sobre o cristianismo é ele ser histórico e particular. Jesus viveu em um tempo e local. O desígnio de Deus é abrir nossos olhos para ver a perfeição espiritual e o valor desse homem especial exatamente do modo como ele é revelado na Palavra. Se orarmos para ver essa realidade, mas mentalmente nos afastarmos dela, então não a veremos. Portanto, não ore e fique à deriva.

Que então devo fazer?

1. Ore e leia

Leia a Palavra! Que privilégio! E que obrigação! E que potencial para ver Deus! Examine Efésios 3,3-4. Paulo escreve: “Pois, segundo uma revelação, foi-me dado conhecer o mistério, conforme escrevi há pouco, resumidamente, pelo que, quando ledes, podeis compreender meu discernimento no mistério de Cristo”. Quando você ler! Deus desejaria que os mais sublimes mistérios da vida fossem revelados pela leitura.

Então compare o capítulo 1,18 onde Paulo declara: “Iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento...”. Assim, Efésios 3,4 declara que o mistério é conhecido pela leitura e Efésios 1,18 diz que, para conhecermos que necessitamos, Deus precisa abrir nossos olhos em resposta à oração. Sim, precisamos orar. Sim, somos cegos sem a ajuda de Deus. Mas a verdade desta semana é: precisamos ler.

“Quando você lê, você pode entender meu discernimento do mistério de Cristo”. A oração não pode substituir a leitura, mas pode transformar a leitura em visão. Se não lermos, não veremos. O Espírito Santo é enviado para glorificar a Jesus e a glória de Jesus é retratada na Palavra. Leia. Regozije-se pelo fato de pode ler.

2. Ore e estude

2 Timóteo 2,15: “Procura (ou “estude” KJV) apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a Palavra da verdade”. Deus nos deu um livro sobre ele mesmo não para lê-lo de forma negligente como desejássemos. Paulo afirma: “Procura... que maneja bem a Palavra da verdade”. Significa trabalhar na Palavra se quiser o máximo dela.

O pêndulo balança para trás e para frente. Alguns dizem ore e ore, mas não se apoiam no trabalho não espiritual da disciplina do estudo. Outros afirmam: estude e estude porque Deus não vai lhe dizer o sentido de uma palavra em oração. Mas a Bíblia não terá nada a fazer com essa dicotomia. Precisamos estudar e manejar bem a Palavra de Deus; precisamos orar ou não veremos na Palavra uma realidade necessária: a glória de Deus na face de Cristo (2 Coríntios 4,4-6).

Benjamin Warfield, grande estudioso da Bíblia, escreveu em 1911: “Às vezes, ouvimos que dez minutos de joelhos lhe dará um conhecimento de Deus mais verdadeiro, mais profundo e mais eficaz que dez horas em cima de seus livros. O quê? - Essa é a atitude apropriada – dez horas sobre seus livros e de joelhos?”.1 Essa opinião de Warfield capta o pensamento bíblico. Sim, precisamos orar. Não veríamos as maravilhas da Palavra de Deus se ele não abrisse nossos olhos. Mas oração não pode substituir o estudo, porque Paulo afirma: “Procura — estude — manejar bem a Palavra.

3. Ore e sonde

Nossa aproximação da Bíblia deveria ser semelhante a do miserável na corrida ao ouro, ou de uma noiva que perdeu a aliança de noivado em algum lugar na casa. Ela sonda a casa. É dessa maneira que procuramos por Deus na Bíblia.

Provérbios 2,1-6 declara:

1 Filho meu, se aceitares as minhas palavras e esconderes contigo meus mandamentos, 2 para fazeres atento à sabedoria o teu ouvido e para inclinares o coração ao entendimento, 3 e se clamares por inteligência, e por entendimento alçares a voz, 4 se buscares a sabedoria como a prata e como a tesouros escondidos a procurares, 5 então, entenderás o temor do Senhor e acharás o conhecimento de Deus. 6 Porque o Senhor dá sabedoria, e da tua boca vem a inteligência e o entendimento.

Aceite, esconda, atente, incline seu coração, clame, alce sua voz, busque a prata, procure por tesouros escondidos. Isto é sondar a Bíblia por tudo que é valioso. Se há tesouros escondidos, procure por eles. Se há prata, procure por ela. Por todos os meios (como o versículo 4), mas não substitua a oração por sondagem. Deus ordena conceder esses tesouros àqueles que buscam de todo o coração (Jeremias 29,13).

4. Ore e pondere

Pondere sobre 2 Timóteo 2,7. A ARA expressa assim: “Pondera o que acabo de dizer, porque o Senhor te dará compreensão em todas as coisas”. Literalmente : “Reflita sobre (noei) que digo”. Esse texto significa que a compreensão do ensino de Paulo é simplesmente um esforço de reflexão humano e natural? Não. O fim do versículo declara: “O Senhor te dará compreensão”. Não é você que pode compreender o ensino pelo seu próprio esforço. A apreensão espiritual é um dom de Deus.

Deus concede o dom da luz sobrenatural mediante a ponderação. “Pondera o que acabo de dizer, porque o Senhor te dará compreensão em todas as coisas”. Assim, sem dúvida alguma, ore e peça a Deus para lhe dar a luz de que precisa. Mas não substitua a ponderação pela oração. Pondere e ore. Ore e pondere. Essa é a forma que Deus estabeleceu. Um Cristo histórico. Um livro de preservação e revelação. Tudo o que tenho dito exclama: leia e estude e sonde e pondere. Mas tudo é em vão sem a oração. Ambas as coisas, e não uma ou outra.

5. Ore e fale

Deus pretende que a Palavra escrita se torne a palavra falada na pregação e na mútua exortação, repreensão, advertência, encorajamento e conselho de seu povo. Colossenses 3,16 afirma: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda sabedoria...”. A Palavra de Cristo para nós se torna nossa palavra uns para os outros.

Eu prego. Essa é a vontade de Deus para sua Palavra, que ela seja proclamada novamente reiteradas vezes. E vocês falam uns aos outros a Palavra de Deus. Essa é uma das razões fundamentais para que haja grupos familiares na igreja — para tornar a Palavra de Deus por meio de nós. Fale sobre isso uns com os outros.

Significa que podemos nos livrar da oração nesses momentos — que podemos, de alguma forma, abrir os olhos do coração para ver as maravilhas da Palavra de Deus porque estamos anunciando-a com convicção ou argumento persuasivo ou frase de efeito? Não é o que Paulo ensina. Nessa carta (Colossenses 1,9-10) ele ora — ora! — “... Não cessamos de orar por vós e de pedir que transbordeis de pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiritual... e crescendo no pleno conhecimento de Deus”.

Se conhecer a Deus e tiver sabedoria espiritual e entendimento fossem automáticos quando a Palavra de Cristo habitasse ricamente em vós, então Paulo não precisaria orar sinceramente a Deus para que ele nos desse conhecimento, sabedoria espiritual e entendimento.

A Palavra e a oração juntas

Assim sendo, vemos reiteradamente: oração é indispensável se quisermos ver a glória de Deus em sua Palavra. Mas já vimos que a leitura, estudo, sondagem, ponderação e proclamação da Palavra são também necessárias. Deus ordenou que a obra de seu Espírito de abrir os olhos sempre seja combinada com a obra de informação mental de sua Palavra. Seu propósito é que vejamos a glória de Deus e que reflitamos a glória de Deus. E assim ele abriria nossos olhos quando olhássemos para a glória de Deus na Palavra.

Ler, estudar, sondar, ponderar, falar, ouvir. E ore: “Desvendai meus olhos, para que eu contemple as maravilhas de vossa lei”

(Para reflexão adicional, veja Lucas 24,45; Atos 16,14; 2 Reis 6,17; Mateus 16,17; 11,2-6, 27).


1 NOLL, Mark (ed.). The Religious Life of Theological Students [A Vida Devocional dos Estudantes de Teologia]. In: ______.The Princeton Theology [A Teologia de Princeton]. Grand Rapids: Baker Book House, 1983. p. 263.

©2014 Desiring God Foundation. Used by Permission.

Permissions: You are permitted and encouraged to reproduce and distribute this material in physical form, in its entirety or in unaltered excerpts, as long as you do not charge a fee. For posting online, please use only unaltered excerpts (not the content in its entirety) and provide a hyperlink to this page. For videos, please embed from the original source. Any exceptions to the above must be approved by Desiring God.

Please include the following statement on any distributed copy: By John Piper. ©2014 Desiring God Foundation. Website: desiringGod.org